segunda-feira, 8 de junho de 2009

Lugares "autorizados" de fala e produção de saber

Uma das coisas que mais me instiga enquanto estudante que pretende seguir na área acadêmica é justamente de que forma meu trabalho, minhas pesquisas, estudos, financiados com dinheiro público, retornarão à sociedade, quem financia através dos azedos impostos, meus serviços.
E ainda que não fosse financiado pelo Estado, se a proposta é estudar a sociedade, culturas, políticas, enfim o mundo em que vivemos, de que isso adianta se não é revertido em forma de diálogo, interação com o objeto?Seria o objeto apenas interessante enquanto matéria prima para análise?


Já são escassas as formas de intervenção civil, social, em instituições de poder, como por exemplo, percebemos na grande mídia, cuja dominância encontra-se concentrada nas mãos de algumas restritas famílias. (como discute o post da Gyssele: http://blogdogrecos.blogspot.com/2009/05/uma-velha-discussao.html). Todavia, o que a mim impressiona, é ver esse mesmo distanciamento, isolamento dos processos de construção de saber,nas areas acadêmicas, intelectuais, reproduzir , em alguns níveis, a mesma lógica que muitas vezes criticam.

Fóruns de debates, congressos, seminários, instâncias onde estudos são repensados, críticas são elaboradas, em alguns casos são fechados exclusivamente para a classe. Entendo que processo de produção destes trabalhos seja diferenciado, atingem uma complexidade que de fato os distingue, mas de forma alguma isso deveria ser empecilho para o diálogo com os não pares, oriundos de outras áreas de saber, com outras maneiras de complexificar, acrescentar às questões.

Estratégias de legitimação dos lugares autorizados de falas, no caso acadêmico, muitas vezes se manifestam de forma tão despótica, que podemos questionar se essas falas, mesmo quando propõem mudanças sociais, indicam problemas e ações, não são apenas uma roupagem diferente para a mesma lógica hegemônica que combatem.

Talvez a afirmação anterior possa soar muito dura, e obviamente não podemos generalizar todos os fóruns de discussões, mas o que pretendo aqui é evidenciar que a valorização e condição do distanciamento das faculdades de saber, para que a produção seja feita com excelência, muitas vezes compromete seu potencial impacto sobre a sociedade em que estão inseridos, a quem deveriam prestar conta.

Não seria a função desses intelectuais, além de elaborar reflexões sobre a sociedade em que atuam também traduzi-las, para que possam circular e ser apropriadas por outros atores sociais e em outros meios, que não os academicamente consagrados?

À luz dessa questão, exemplifico uma iniciativa que justamente desafia os padrões de distanciamento, isolamento, faz questionamentos inteligentes, politicamente engajados apropria-se de um meio de comunicação de massa, a TV, em formato popular, numa mescla de telejornal e programa de auditório, e, portanto dialogando com a sociedade: o programa CQC. (Custe o que Custar)

"Vai ser fácil reconhecer a trupe do CQC. Afinal de contas, são sete homens vestidos de terno preto, usando inseparáveis óculos escuros. Mas a principal marca do time "Custe o que custar" é a irreverência.
Com humor inteligente, audacioso e muitas vezes ácido, o programa faz um resumo semanal das notícias, e nessa varredura dos fatos importantes, sob o olhar atento do CQC, ninguém escapa. No estúdio, quartel general do CQC, Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque assumem a bancada, e além de conduzir o programa ao vivo terão a missão de comentar livremente os principais assuntos da semana.”
(retirado na íntegra do site oficial do programa: http://www.band.com.br/cqc/oprograma.asp)

Não são intelectuais stricto sensu, na maioria jornalistas e atores, mas propõem de forma inovadora, a ocupação de espaços, de formatos que já dialogam com grandes públicos, com conteúdos diferenciados, contestadores. Desafiam e questionam seus “semelhantes”, outros jornais, desde políticos ,celebridades,dentre outros “personagens” de destaque nos noticiários semanais.

Segue uma amostra do trabalho que eles desenvolvem:



Trata-se de um exemplo que demonstra uma eficaz forma de apropriação de formatos consagrados, e muitas vezes repudiados por uma elite intelectual, que no entanto, causam mais impacto do que alguns anos de pesquisa empoeirados.

P.S- O teor um tanto acre desse post tem uma razão: a negação do direito da aluna que vos escreve em participar da COMPÓS 2009, nem como ouvinte. Alegou a coordenação que não seriam aceitos nenhum ouvinte, acrescentando que se tratava de um congresso apenas para a pós graduação, logo minha presença se fazia inapropriada de qualquer forma...

2 comentários:

Joao disse...

Bia, tem jeito não, mais cedo ou mais tarde os muros cairão. Os muros que 'protegem' são os mesmos que isolam. Tem um texto que gosto muito chamado A linkania e o Religare" que fala um pouco sobre isso.

JonnY disse...

é... realmente o programa cqc é um ótimo programa! tráz o q uma elite não gosta d ouvir... e esconde por trás dos panos.. estamos juntos nessa luta! =D abçs! té+!