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sábado, 26 de novembro de 2022

Identidades Culturais na Contemporaneidade - Trabalhos Finais - Análise da série I May Destroy You (2020)

 


Para a avaliação final da disciplina Identidades Culturais na Contemporaneidade, as alunas Indaiá Mattos, Luciana Toledo e Sarah Roque produziram uma análise série I May Destroy You, disponível na HBO Max.

Lançada em 2020 e com apenas 1 temporada, a série é escrita, dirigida e estrelada por Michaela Coel. Na série, somos apresentados a Arabella, uma jovem mulher londrina de ascendência ganesa que ganha visibilidade como escritora após viralização de seus textos no Twitter. Em uma noite com amigos, Arabella é dopada e estuprada e é a partir deste conflito que a trama se desenvolverá. A série é uma ficcionalização de um abuso sofrido pela atriz e diretora Michaela Coel, que aconteceu enquanto as gravações de sua primeira série, Chewing Gum, aconteciam. Ainda que a narrativa tenha como foco questões como assédio, consentimento, feminicídio e o movimento Me Too, a série também traz consigo reflexões importantes sobre memória, identidade e representação.

Para ler o trabalho completo clique aqui. 



Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI


Identidades Culturais na Contemporaneidade - Trabalhos Finais - Ciclo Sem Fim: Identidade Enquanto Questão em "O Rei Leão"

 


Para a avaliação final de Identidades Culturais na Contemporaneidade, o aluno Daniel Filipe Silva Moraes fez uma análise do produto midiático pensando a relação do mesmo com a questão das identidades. Para tanto, o produto midiático escolhido foi o filme “O Rei Leão” (1994), da Walt Disney Pictures, e, no trabalho, buscarei traçar algumas formas como “identidade” pode ser encarada como parte chave nesta animação.

Para ler o trabalho completo clique aqui. 



Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI


Teorias Críticas de Midia - Trabalhos Finais - A Grande Família e a Praça Pública na TV

 


Para finalizar a disciplina Teorias Críticas de Midia, o aluno João Pedro Ferreira Soares desenvolveu uma análise do programa A Grande Família.

Ao longo de 485 episódios e 11 temporadas, o seriado de comédia A Grande Família produzido e exibido pela TV Globo conquistou o público e é considerado hoje um dos grandes marcos na história da televisão brasileira. De 2001 à 2014 a produção que almejava representar uma família de classe média baixa na TV, aos moldes do que poderia ser encontrado pelos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, lançou moda, ditou tendências e se transformou ao longo dos anos, subtraindo e somando personagens, transformando suas relações profissionais e pessoais e, acima de tudo, buscando atravessar a primeira década e meia do século XXI a eboque do público, que poderia encontrar na tela da televisão um pouco dos temas e discussões mais efervescentes da sociedade brasileira à época, incrementados por um roteiro por vezes considerado simplista e generalista, já em outras despretensioso, ácido e até mesmo calcado no absurdo, que tentava emular o dia a dia de um país que via a ascensão da chamada “nova classe C”, justamente a classe popular que deu origem ao conceito do seriado.

Para ler o trabalho completo clique aqui. 


Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI


Identidades Culturais na Contemporaneidade - Trabalhos Finais - Notas Etnográficas Sobre o "Brasil" do Reddit

 


Para finalizar a disciplina Identidades Culturais na Contemporaneidade, o aluno João Pedro Ferreira Soares desenvolveu uma análise etnografica do site Reddit.

Atualmente, as possibilidade de interação, trocas de experiências e expressão ultrapassam os limites do mundo físico. Com o advento da Internet, novas possibilidades de comunicação surgiram, principalmente através das redes sociais digitais. Dentre as principais redes sociais da atualidade está o Reddit. O Reddit funciona como um agregador geral de notícias, que podem ser compartilhadas e comentadas por pessoas de todas as partes do mundo pelos chamadas subreddits, que são comunidades específicas sobre assuntos específicos presentes nesse grande agregador geral que é a plataforma. Reddit vem do inglês "read it" ou "leia isto", em português, e não há limites para o que pode se transformar em uma comunidade para criar e compartilhar conteúdos a serem lidos. Filmes, games, religião, política, literatura, TV - tudo pode gerar uma nova comunidade na plataforma. Pelas comunidades, pessoas desconhecidas ao redor do mundo podem se unir para debater um tema - compartilhando gostos, valores e estilos de vida.

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Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

Teorias Críticas de Midia - Trabalhos Finais - Análise de Euphoria (HBO)

 


Para finalizar a disciplina Teorias Críticas de Midia, as alunas Indaiá Mattos, Luciana Toledo e Sarah Roque desenvolveram uma análise da série “Euphoria”, disponível na HBOMax.

Adaptada pelo produtor e roteirista estadunidense Sam Levinson, Euphoria é baseada em uma série israelense de mesmo nome. Transmitida pela HBO, a série retrata a vida e o cotidiano de jovens que frequentam o mesmo colégio, bem como suas relações, traumas e afetos. A trama é focada na personagem Rue, uma jovem recém saída da reabilitação adicta em opióides, que de volta à vida escolar tenta se adaptar à sobriedade novamente. Ainda que o ponto de partida da narrativa seja o retorno de Rue, ao longo de 8 episódios, o espectador também é apresentado à vida de outros personagens que enriquecem a trama e trazem à tona outros conflitos.

Sendo definida pela crítica como uma série sobre fissura, Euphoria é considerada a série da geração z, definida pelo uso de aplicativo de relacionamentos, sites de pornografia, mensagens de texto e nudes, uma geração hiperestimulada e portanto, blasé. Pretendemos com este trabalho analisar a produção sob as lentes dos teóricos George Simmel e Zygmunt Bauman a fim de investigar como os sintomas modernos de mal estar contemporâneo se relacionam à trama.


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Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI


Identidades Culturais na Contemporaneidade - Trabalhos Finais - Identidade e Representação em Ms.Marvel

 



Para finalizar a disciplina Identidades Culturais na Contemporaneidade, o aluno Alcir Guilherme desenvolveu uma análise série Ms. Marvel, disponível no Dinsey+.

A série Ms. Marvel tem como protagonista uma jovem de 16 anos de origem paquistanesa chamada Kamala Khan que vive em Nova Jersey junto com seus pais conservadores e seu irmão mais velho, gosta de escrever fanfics e é fascinada em heróis, especialmente a Capitã Marvel. Kamala tem que enfrentar diversos problemas para poder e encaixar na sua família e fazer amigos na escola, mas a jovem geek vê sua vida mudar rasticamente quando adquire poderes e por causa disso tem que aprender a equilibrar sua vida como super-heroína e a vida escolar. Além disso, tem que saber lidar com as dificuldades de pertencer a uma família mulçumana, vivendo nos Estados Unidos.

Por se tratar de uma série da Marvel HQ, a história é centrada no embate entre herói e vilão, bem e mal, o diferencial desta série em comparação com as outras disponíveis no Disney+ é que Ms. Marvel não traz uma heroína puramente americana, mas paquistanesa somando-se e somado a este fato nos apresenta uma cultura pouco conhecida, possibilitando o conhecimento sobre os costumes e os abusos das autoridades policiais sobre os mulçumanos, principalmente pelo que aconteceu no 11 de setembro.

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Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI


Teorias Críticas de Midia - Trabalhos Finais - Análise do filme “Dancing Queens”


Para finalizar a disciplina Teorias Críticas de Midia, a aluna Natacha Ferreira Moreira desenvolveu uma análise do filme “Dancing Queens” usando os conceitos de Erving Goffman e Pierre Bourdieu, que foram discutidos durante o período.

“Dancing Queens” (2021) é um filme sueco dirigido por Helena Bergström, produzido pela Sweetwater Production e distribuído pela Netflix. Na trama, Dylan Pettersson é uma dançarina de disco que mora em uma pequena ilha. Ao ir para a cidade para uma audição de uma companhia, os eventos acabam a levando a ser faxineira em um clube de drag. Ela conhece Victor, um coreógrafo que está tentando tirar o clube da falência iminente ao modernizar a apresentação do grupo da casa. Ao descobrir o talento de Dylan, Victor fica tentado a contratá-la. Só tem um problema: Dylan é uma mulher e mulheres não podem ser drag queens. Querendo aproveitar essa oportunidade de se expressar pela dança, Dylan decide se passar por um homem para conseguir uma vaga no grupo.

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Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia

Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

Identidades Culturais na Contemporaneidade - Trabalhos Finais - A questão das identidades apresentada no disco “Da Lama Ao Caos” e a influência no movimento Manguebeat

 


Para finalizar a disciplina Identidades Culturais na Contemporaneidade, as alunas Ana Clara Martins, Ana Luise Duniec e Lara Ribas desenvolveram uma análise de "Da Lama ao Caos", álbum da Nação Zumbi.

Pernambuco, ano de 1990. De acordo com o Population Crisis Comitee, Instituto de Washington D.C, R, Recife era a quarta pior cidade do mundo para se viver, carregando elevados índices de violência e desemprego. Nesse mesmo cenário, as políticas neoliberais marcavam um avanço cada vez maior, ao passo que as políticas públicas socioculturais passavam por uma redução significativa. Foi em meio a esse contexto que, em 1994, a banda Chico Science & Nação Zumbi lançou o seu primeiro álbum, “Da Lama ao Caos”.

As letras, a estética sonora e os discursos expostos na obra, com maior parte das composições elaboradas por Chico Science, fizeram com que o disco se tornasse uma das maiores representações do movimento Manguebeat, destacando toda a sua potência. Os principais objetivos da cena Mangue giravam em torno da ocupação de espaços e produção de manifestações culturais que questionassem aquela realidade social, sempre considerando a importância do senso coletivo, ou seja, da urgência de atuar em conjunto.

Conforme Ramos (2019), o Manguebeat trouxe uma inovação ao conferir significado público às mídias massificadas, buscando oferecer maior acessibilidade à produção regional, criando sentido de pertencimento à população que desejava uma alternativa às práticas culturais pautadas nos valores tradicionais. Sendo assim, a cena Mangue traz um novo olhar para a cultura local e urbana, tornando possível a construção de novas identidades culturais. Já que o álbum de Chico Science & Nação Zumbi consiste em uma das produções pioneiras do movimento, o presente trabalho tem como objetivo avaliar como questões relacionadas às identidades culturais, sociais e individuais são colocadas na obra, ampliando o debate para a cena Manguebeat. Apesar da complexidade envolvida no conceito de identidade, serão apresentados autores que trouxeram contribuições fundamentais para o debate.


Para ler o trabalho completo clique aqui. 


Postagem: Julieverson Figueredo - graduando de Estudos de Mídia

Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Blog recomendado: Estudios Culturales

Vale a pena conhecer o blog Estudios Culturales, dedicado ao tema e com postagens bem interessantes sobre o mesmo.


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Francine Saillant e o trabalho do reconhecimento


Francine Saillant é uma antropóloga e intelectual canadense e diretora do Centro Interuniversitário de Letras, Artes e Tradições (CELAT), sendo professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Laval desde 1996. Em meados da década de 1980, Saillant concentra-se nos estudos de antropologia da medicina e desenvolve trabalhos de etno-história sobre aspectos culturais afetados pelo câncer, Cancer et Culture, e questões sobre gravidez, Qui consulte les sages-femmes au Québec ? 

No início dos anos 2000, Francine Saillant volta suas atenções para questões de cidadania, direitos por invalidez e questões raciais no Brasil. Entrando nessa linha, a pesquisadora passa a trabalhar com estudos de reparação e reconhecimento de minorias sociais, nos quadros brasileiros de emergência das lutas sociais. 

Em seu capítulo "Reconhecimento e reparações: o exemplo do movimento negro no Brasil", publicado no livro "História oral e comunidade: reparações e culturas negras", organizado por Hebe Mattos, do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI), Saillant elabora um panorama geral das teorias do reconhecimento e reparação, que tangenciam os estudos da filosofia, sociologia, ciências políticas e a antropologia. 

Com isso, ela ressalta os aspectos identitários e as relações sociais dos grupos raciais minorizados e elabora sobre as questões que atravessam o "lugar" das minorias sociais e suas diversas formas de inclusão social, dadas através de políticas públicas estatais e, principalmente, as ações comunitárias elaboradas em prol desses grupos. 

Ao trabalhar o exemplo do movimento negro brasileiro, a autora comenta sobre a história da escravidão e os resquícios desta história no presente momento da sociedade "pós-escravista". Também identifica as leis de incentivo à cultura e história da África e as politicas de reparação e  valorização da cultura negra como objeto central da formação identitária da cultura brasileira. Tudo isso levando em conta as propostas e todas as lutas do movimento negro, propondo a ideia de reparação de si, a reparação do dano histórico de negro dado nas instâncias de atividade cultural feitas de "nós para nós".

Clique aqui para mais informações sobre o livro que se encontra na página do Projeto Passados Presentes

Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

quarta-feira, 12 de abril de 2017

"A dificil tarefa de definir quem é negro no Brasil": Uma entrevista com Kabengele Munanga


Kabengele Munanga é um antropólogo congolês, naturalizado brasileiro. Sua especialidade nos estudos da antropologia estão centrados nas questões afro-brasileiras. Mais precisamente, assuntos permeados pelo racismo enraizado na sociedade brasileira.

Munanga é graduado em Antropologia pela Universidade Oficial do Congo. Em 1969, ingressou no programa de mestrado na Universidade de Louvain, mas por conta de problemas políticos não conseguiu finalizar seus estudos na Bélgica. Entretanto, conseguiu terminar seus estudos em um programa de doutorado da USP.

Após se estabelecer no Brasil, em 1980, assume a cadeira de Antropologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e volta à São Paulo e assume como professor de antropologia efetivo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP). Foi vice-diretor do Museu de Arte Contemporânea e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia e do Centro de Estudos Africanos da USP. Atualmente, desde de 2014, se encontra como professor sênior na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, no programa de Pós-graduação em Ciências Sociais.

Kabengele Munanga é um dos teóricos primordiais para a reflexão das teorias sociais que levam em consideração os racismos aplicados na sociedade brasileira. Em um de seus livros, "Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra", o antropólogo discute a problemática antagônica da mestiçagem no Brasil que atravessa a constituição da identidade nacional brasileira e a concepção da identidade negra dentro do território nacional.

Na entrevista abaixo, concedida em 2004, ao editor da revista Estudos Avançados, o professor Alfredo Bosi e o editor assistente, jornalista Dario Luis Borelli, Kabengele Munanga discute os atravessamentos da formação identitária negra no Brasil e as dificuldades de definir "certeiramente" quem é negro no Brasil.

"ESTUDOS AVANÇADOS: Quem é negro no Brasil? É um problema de identidade ou de denominação?

Kabengele Munanga: Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer pessoa que tenha essa aparência. É uma qualificação política que se aproxima da definição norte-americana. Nos EUA não existe pardo, mulato ou mestiço e qualquer descendente de negro pode simplesmente se apresentar como negro. Portanto, por mais que tenha uma aparência de branco, a pessoa pode se declarar como negro.

No contexto atual, no Brasil a questão é problemática, porque, quando se colocam em foco políticas de ações afirmativas – cotas, por exemplo –, o conceito de negro torna-se complexo. Entra em jogo também o conceito de afro-descendente, forjado pelos próprios negros na busca da unidade com os mestiços.

Com os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostrando que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode se dizer um afro-descendente. Trata-se de uma decisão política.

Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar. O único jeito é submeter essa pessoa a um teste de DNA. Porém, isso não é aconselhável, porque, seguindo por tal caminho, todos os brasileiros deverão fazer testes. E o mesmo sucederia com afro-descendentes que têm marcadores genéticos europeus, porque muitos de nossos mestiços são euro-descendentes.

O problema das cotas

E. A.: Em face da concessão de cotas para negros, ou para outros segmentos da população que não tiveram a mesma condição de cursar escolas da classe média ou alta, qual a sua posição?

K. M.: Por ocasião dos trezentos anos da morte de Zumbidos Palmares, em 1995, começamos a discutir essa questão na USP, numa comissão criada pela reitoria.

Os movimentos negros, principalmente o Núcleo da Consciência Negra, pleitearam o estabelecimento de cotas em nossa universidade. Contudo, afirmei que não poderíamos discutir o sistema de cotas sem antes fazer uma pesquisa preliminar em países que já têm experiência de cotas, como os EUA, o Canadá, a Austrália ou a Índia.

Naquela ocasião, apresentei essa proposta, mas ela não foi levada adiante. No entanto, na base de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um órgão do governo federal, conclui-se que realmente há uma grande defasagem na escolaridade dos negros nas universidades brasileiras.

Infelizmente, porém, começamos a enfrentar a questão pelas cotas, a partir da decisão do governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, que provocou uma confusão muito grande, quando estabeleceu cotas nas universidades estaduais. No entanto, mesmo num país com tantas desigualdades, as políticas universalistas não resolvem o problema do negro. Para isso precisamos formular políticas específicas contra as desigualdades, mas o caminho não deve ser necessariamente por meio de cotas.

Essa discussão, todavia, é importante, porque antes nem se tocava no assunto. Escutei outro dia algo muito positivo quando alguém dizia que deveria haver cotas para pobres. Ora, antes ninguém apresentou esse ponto de vista. Oque mais me surpreende é que jamais o movimento negro se disse contrário a cotas para brancos pobres.

A questão ainda está mal discutida, sendo formulada num tom passional, tanto pelos negros como pelos intelectuais. A questão não é a existência ou não das cotas. O fundamental é aumentar o contingente negro no ensino superior de boa qualidade, descobrindo os caminhos para que isso aconteça.

Para mim, as cotas são uma medida transitória, para acelerar o processo. No entanto, julgo que não somente os negros, mas também os brancos pobres têm o direito às cotas. Se as cotas forem adotadas, devem ser cruzados critérios econômicos com critérios étnicos. Porque meus filhos não precisam de cotas, assim como outros negros da classe média.

E. A.: O sr. iniciou suas declarações dando uma opinião contra as cotas, mas agora aponta para o problema da urgência. As cotas aparecem como uma medida de urgência?

K. M.: Sim. Ao menos que o país diga que tem hoje uma outra proposta emergencial melhor, que não abra mão de uma política universalista com vistas ao aperfeiçoamento do nível do ensino básico. É bom lembrar que a escola pública já apresentou melhor qualidade, mas o negro e o pobre não entravam nela.

Melhorar a escola pública

E. A.: O sr. acha que a médio prazo a alternativa seria uma transformação mais profunda do ensino básico e secundário? Um número considerável de alunos negros faz o segundo grau em escolas públicas. Não falo deles como negros, mas sim como pobres. Será que as cotas não resolvem o problema porque o enfrentam no fim da linha, em vez de atacá-lo no começo?

K. M.: Sim. Porém, vivo aqui há 28 anos e desde que cheguei escuto esse discurso. Mas nunca vi luta política e social alguma para a melhoria da escola pública. Só há o discurso. Mas o que fazer com a vítima? Esperar que isso aconteça por milagre, ou pressionar a sociedade através de uma proposta: como pelo menos cuidar da escola pública? A dúvida que tenho é a seguinte: num país onde a privatização do ensino é cada vez maior e no qual o lobby das escolas particulares é tão forte, só posso antever uma melhoria a longo prazo. Lembro-me de que o primeiro processo contra as propostas de cotas no Rio de Janeiro veio do sindicato das escolas privadas.

Devido a essa tendência para a privatização das escolas públicas, não acredito numa rápida melhoria delas. A desigualdade social que existe há quatrocentos anos não pode ser resolvida por meio de políticas universalistas. É preciso, portanto, traçar políticas específicas para se encontrar uma solução.

A discriminação racial

A palavra “social” incomoda-me muito. Quando dizem que a questão do negro é uma questão social, o que quer dizer “social”? As relações de gênero são uma questão social; a discriminação contra o portador de deficiência é uma questão social; a discriminação contra o negro é uma questão social. Ora, o social tem nome e endereço. Não podemos diluir, retirar o nome, a religião e o sexo e aplicar uma solução química. O problema social tem de ser atacado especificamente.

A discriminação racial precisa ser urgentemente enfrentada. Nós, negros, também temos problemas de alienação de nossa personalidade. Muitas vezes trabalhamos o problema na ponta do iceberg que é visível. Mas a base desse iceberg deixa de ser trabalhada.

Estou aqui, como disse, há 28 anos. Vou a restaurantes utilizados pela classe média e a centros de alimentação nos shoppings. Encontro famílias brancas comendo (homem, mulher e filhos), mas dificilmente estão ali famílias negras. Há uma classe média negra, mas que se autodiscrimina e que é também discriminada. Desafio vocês a me dizerem que encontraram quatro famílias negras em cinco restaurantes de classe média em São Paulo. Vejamos o meu caso: em meu segundo casamento (que é interracial) percebia aquelas “olhadas” – mulher branca, filhos negros do primeiro casamento e filhos mestiços do segundo. Ninguém me expulsava desses lugares, mas eu via as “olhadas”...

(…)

Um antropólogo em dois mundos

E. A.: O sr. poderia descrever um pouco sua trajetória até chegar no Brasil?

K. M.:  Nasci no antigo Zaire, que hoje se chama República Democrática do Congo, numa aldeia no centro do país. Estudei num colégio interno de jesuítas e fiz graduação em Antropologia. Aliás, fui o primeiro antropólogo formado naquela universidade e o único aluno que teve aulas com professores franceses, belgas e americanos convidados, pois não havia ainda professores africanos na Universidade quando eu entrei. Lá, nós acabávamos a graduação com um tipo de dissertação que se chamava Mémoire. O sistema belga dava o direito de se entrar diretamente no doutorado. Em razão disso, comecei o doutorado em Louvain, na Bélgica, em 1969. Dois anos depois, voltei para pesquisas de campo. Mas houve complicações políticas. Cortaram a bolsa e não pude fazer mais nada.

Por coincidência, encontrei no Congo, em 1973, o professor Fernando Mourão, que ali estava realizando palestras sobre as contribuições africanas para a cultura brasileira. Conversamos e ele me disse que a USP possuía um projeto de cooperação com as universidades africanas e que nela eu poderia completar o doutorado. Cheguei aqui em 1975 e me inscrevi no doutorado, sob a orientação do professor João Batista Borges Pereira. Como eu estava bastante adiantado, em dois anos defendi minha tese. Trabalhei sobre o processo de mudanças socioeconômicas numa comunidade no sul do Congo. Voltei correndo à militância para colocar meus conhecimentos à disposição de meu país. Mas quando cheguei lá, tive de fugir para o Brasil.

Quando houve a independência do meu país, o antigo Zaire (em 30 de junho de 1960), eu estava com dezoito anos. A Faculdade foi criada pela Bélgica, seis anos antes da independência, em consequência de pressões internacionais. Fui alfabetizado na minha língua materna, mas no fim do primeiro grau começou o ensino em francês. O resto do curso foi em francês. Isso porque, com mais de duzentas línguas, não era possível escolher uma para ser a língua nacional. Todos os alfabetizados falam francês.

E. A.: Alguma dessas línguas africanas é hegemônica?

K. M.: O suahili que é uma língua falada em muitos países africanos, em parte do Zaire, Tanzânia, Burundi, Quênia e Uganda.

E. A.:  Suahili tem alguma coisa a ver com o árabe?

K. M.: Cerca de vinte por cento do vocabulário, porque desde a Antigüidade os árabes tiveram muita influência no continente, a partir do oceano Índico, além de terem sido responsáveis pelo tráfico oriental e transaariano (entre os anos de 600-1600). Mas a estrutura da língua é totalmente bantu (africana)".


*Para acessar a entrevista completa, clique aqui.


Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

terça-feira, 15 de julho de 2014

Mídia e Representações da Favela - Trabalhos Finais: Análise de uma representação midiática de favela

Como trabalho final da disciplina "Mídia e Representações da Favela", as alunas Ingrid Nepomuceno e Maria Linhares realizaram uma análise da matéria "Na subida do morro", publicada na revista VEJA Rio em junho de 2014 (clique aqui para ler). Analisando desde o seu contexto de publicação e circulação aos discursos dos entrevistados, o trabalho explora bem a proposta de distanciamento que domina a narrativa da matéria e as diferentes realidades da "favela turística" das UPPs - argumentando sobre os estereótipos já impregnados na consciência social de quem não faz parte daquele contexto específico.

Vale a leitura!
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Para concluir nossas reflexões e mostrar o que aprendemos durante a disciplina, optamos por realizar a análise de uma representação midiática de favela. Após realizarmos uma pesquisa acerca destas representações na mídia em geral, encontramos uma matéria,  veiculada pela revista VEJA Rio, que acreditamos  sintetizar  diversas  questões  que  nos  chamaram atenção e que valem ser abordadas na presente análise. A matéria se chama  “Na subida  do  morro” e foi escrita pelos jornalistas Fabio Codeço e Rafael Cavalieri. Suscintamente, a matéria relaciona a pacificação de diversas favelas do Rio de Janeiro  com a popularização destes espaços como ambientes de entretenimento e gastronomia, partindo do pressuposto de que a favela anteriormente era um ambiente “inseguro”, impossível de ser frequentado.

Para  que  o  cenário retratado  na  matéria  pudesse  se  tornar  realidade,  a  cidade  do  Rio  de Janeiro  passou  por  um  processo  de  gentrificação  recente,  que  há  muito  tempo  era  almejado  pelo Estado. E,  talvez, a principal política implantada para que esse processo fosse concluído tenha sido a criação  das  Unidades  de  Polícia  Pacificadoras (UPPs)  que são  os  braços  do  governo  dentro  das favelas e, infelizmente, o único braço presente naquele território: o armado. Midiaticamente veiculada, a "sensação de segurança"  agora impera na  cidade, graças a uma  política  opressora, exterminadora  e mentirosa. Visto isso, analisaremos trecho à trecho a matéria que, em suas primeiras linhas, já demonstra seu  caráter preconceituoso e maniqueísta.
 
Para continuar lendo, clique aqui!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Mídia e Representações da Favela - Trabalhos Finais: "Favelas do Brasil pelo mundo"

Depois de alguns textos, voltamos com a publicação de um produto apresentado como trabalho final para a disciplina "Mídia e Representações da Favela". As alunas Louise Romano e Isabella Lupatini criaram um tumblr que reúne algumas representações das favelas brasileiras em noticiários do mundo, analisando em comparação a semelhança e a diferença dos discursos repassados pelas mídias nacionais em relação aos veículos de fora.

Confira a apresentação e o link logo abaixo!
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A ideia da criação desse Tumblr surgiu a partir de uma conversa em que contávamos nossas experiências com estrangeiros após passar um semestre estudando em países diferentes. Somos estudantes do curso Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense e fomos para o Canadá e Espanha. Apesar de estarmos em lugares bem diferentes, muitas perguntas que ouvimos sobre o Brasil são as mesmas. Uma das maiores curiosidades, é sobre as favelas. Alguns falam coisas condizentes, uns aparecem com soluções infalíveis e outros simplesmente não tem ideia do que estão falando.

Depois de uma rápida pesquisa percebemos que a favela lá fora pode ser veiculada de uma forma um pouco diferente do como o  é veiculada no Brasil. Não queremos propor um juizo de valor sobre as reportagens ou opiniões, somente compartilhar o que e como estão falando sobre as favelas lá fora.
 
Ao longo de nossas buscas por representações encontramos os mais diferentes pontos de vista. O é que importante ressaltar é que em algumas reportagens, apesar de ser dada devida voz aos moradores das comunidades, muitas vezes a representação está voltada para a construção de um imaginário turístico de determinado fato. Ou seja, a partir daquela construção do real, da forma em que se apresenta será como os turistas que pretendem visitar tal favela pensam que tal local funciona. Porém por trás dessa representação turística pode haver um bastidor que nem sempre é mostrado.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Aulas sobre "O Capital" de Karl Marx, por David Harvey.


Olha aí, gente, que maravilha!

Esse link disponibiliza cinco aulas em vídeo, legendado em português, com o professor David Harvey, sobre a obra "O Capital", escrita por Marx no século XIX.

"O Capital" é considerado um marco do pensamento socialista marxista e obra indispensável na construção da crítica ao capitalismo, abordando conceitos e temas importantes como mais-valia, salário e modo de produção capitalista.

David Harvey é inglês, geógrafo especializado em Marx, formado pela Universidade de Cambridge e, atualmente, leciona na Universidade da Cidade de Nova Iorque. 


Link para as aulas! http://imediata.org/?p=1452



domingo, 9 de dezembro de 2012

Occupation 101



Occupation 101 é um documentário de 2006 que aborda o conflito entre Israel e Palestina, fazendo um breve apanhado histórico na busca de explicar a origem do conflito. O filme mostra a visão da população palestina, trazendo questões que a grande mídia evita transmitir: limpeza étnica, genocídio do povo palestino, relações entre Israel e Estados Unidos, violação dos direitos humanos, abusos cometidos pelos colonos e soldados israelenses contra a população palestina, dentre outras.






O filme está disponível legendado no youtube em 9 partes, nos seguintes links:

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um pouco sobre Joseph Campbell

 A obra de Joseph Cambell, pesquisador e intelectual norte-americano, é referência nos estudos sobre mito, herói, honra e poder. Já lemos, em um dos semestres do GRECOS, algumas de suas reflexões sobre o papel do mito. Neste post, indicamos links úteis para quem pretende se aprofundar nestes temas e no autor.

Para saber mais sobre o autor, clique aqui.

Dados completos: Joseph Campbell Fundation.

Para baixar O Poder do mito, clique aqui.

Para baixar O Herói de mil Faces, clique aqui.

Outros downloads com textos do e sobre o autor, clique aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sobre Howard Becker


Como neste segundo semestre de 2010 estamos estudando G. Simmel nas reuniões do GRECOS, pretendemos fazer uma série de posts sobre o autor e temas afins. Considerando sua enorme influência na formação da Escola de Chicago, na sociologia dos EUA, preparamos esse pequeno post sobre um dos principais nomes dessa Escola, Howard Becker.

No site da FGV, link para uma entrevista realizada em 2009 com o sociólogo norte-americano Howard Becker, mais conhecido aqui no Brasil como o autor de Outsiders (1963).
Um dos membros mais reconhecidos da Escola de Chicago, Becker analisa os autores e contribuições desta Escola em ótimo e delicioso artigo publicado na Revista Mana.

Link também para o excelente artigo do antropólogo Gilberto Velho, especialista em temas referentes à Escola de Chicago, sobre Goffman e Becker.

domingo, 24 de outubro de 2010

Dicas de textos online


Algumas dicas de arquivos disponíves para download:

Pasta com 196 textos de autores como Bourdieu, Foucault, Latour, Lévi-Strauss, Malinowski, Merleau-Ponty, Sahlins, Viveiros de Castro, Leach, Bhabba e Boas.

Alguns textos de Bauman, Bourdieu, Adorno, Weber, Giddens, Elias, Simmel e Habermas.

Textos de filosofia, psicologia e antropologia. Autores como Mauss, Sartre, Platão, Chauí, Aristóteles, Deleuze, Freud, Kant e Heidegger.

Blog com vários links de textos na área de humanidades. Extensa lista de autores e temas nas tags.

Pasta com arquivos de antropologia clássica e social, estudos culturais, linguística, filosofia, semiótica, política, etc. Com muuuuitos autores, dentre eles, Sousa Santos, Bobbio, Luhmann, Florestan Fernandes, Umberto Eco, Stuart Hall e Geertz.


Dica de blog



Já viram o blog Que Cazzo é esse? É um espaço desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Ciências Sociais e do PPGS da UFPE e do Departamento de Ciências Sociais e PPGS da UFPB. Voltado para teoria e metodologia das ciências sociais, trata também de antropologia, história, filosofia, feminismo, comunicação e temáticas contemporâneas.
Para ilustrar, um post sobre Simmel, sociólogo estudado esse semestre no Grecos: "Da vida ao tempo: Simmel e a construção da subjetividade no mundo moderno", de Jonatas Ferreira.
Fica a dica!

sábado, 25 de setembro de 2010

Ulf Hannerz


O antropólogo sueco Ulf Hannerz é diretor do Departamento de Antropologia da Universidade de Estocolmo, além de presidir a Associação Européia de Antropólogos Sociais. Começou seus estudos na década de 60, influenciado por autores da antropologia social britânica, particularmente, a Escola de Manchester, com Gluckman e Mitchell. Ao se mudar para os Estados Unidos, teve contato com o interacionismo simbólico de Goffman e as noções de cultura de Geertz. Desenvolvendo pesquisas em torno da antropologia urbana, culturas transnacionais e globalização, o autor iniciou suas publicações com “Soulside. Inquiries into Ghetto Culture and Community”, em 1969, fruto do trabalho etnográfico realizado num bairro majoritariamente negro de Washington.
Hannerz trabalha com uma perspectiva distributiva da cultura, buscada na sociologia do conhecimento e em autores como Peter Berger e Thomas Luckmann, que enfatizavam seu caráter processual. Tal perspectiva se deu por uma insatisfação com a antropologia clássica, que tendia a homogeneizar os indivíduos sob o manto das culturas. Dessa forma, adota o conceito de criolização, como uma dimensão socioestrutural capaz de abarcar as diversas misturas observadas em suas pesquisas etnográficas. A origem do termo remonta ao contexto da plantation nas sociedades do Novo Mundo e consolida-se nos estudos de sociolingüística. Hannerz propõe sua utilização na cultura a fim de alcançar uma visão macroantropológica, tornando o termo menos genérico e relacionando-o a uma sociedade mais estruturada.
Criolização, hibridez, sincretismo, mestiçagem, sinergia, etc, são criticados por se tratarem de um essencialismo confuso, ao sugerirem que as correntes culturais envolvidas no processo fossem anteriormente puras. Hannerz responde tais críticas se utilizando da lingüística, afirmando que não se levaria a sério a idéia de uma língua historicamente pura. No entanto, as misturas ocorrem em condições específicas nas diversas culturas e em graus variados. Indica ainda que uma das formas de se opor ao fundamentalismo cultural é desmistificando a própria cultura, passando a entendê-la como processo e produto da atividade humana (agency).
Para o autor, as cidades figuram como centros de confluência de culturas, sendo as interações condicionadas a essas combinações. A antropologia clássica estudava as minorias urbanas de modo isolado, não-imersas nas interações sociais promovidas pelo espaço da cidade, preocupando-se mais com o aspecto antropológico. O ambiente urbano, em especial zonas fronteiriças e metrópoles, constituem espaços estratégicos para o estudo da diversidade cultural, como apontam Canclini e outros tantos autores contemporâneos.
Hannerz defende o método etnográfico como forma de analisar os diversos fluxos envolvidos na contemporaneidade e afirma ainda que foi fundamental para a formação de seu pensamento social. Em entrevista concedida a Fernando Rabossi (Os limites de nosso auto-retrato. Antropologia urbana e globalização), diz que "Ao longo de sua história, a antropologia tem oscilado entre orientações que enfatizam a abertura e orientações que enfatizam o fechamento, de forma que, em parte, trata-se de uma questão teórica. No entanto, dadas as atuais condições do mundo, penso que precisamos trabalhar mais com a etnografia, com a análise, e até mesmo com o vocabulário da interconectividade, pois boa parte das pessoas no mundo hoje estão envolvidas em vários tipos de mobilidade geográfica, além da existência da mídia e de instituições educacionais muito semelhantes pelo mundo afora - o que não se adequa à imagem do mosaico. Eu e algumas outras pessoas temos utilizado a noção de "fluxos", metáfora que me parece conduzir efetivamente para uma preocupação com os processos que se desenrolam no espaço e no tempo".
Em seu artigo, “Fluxos, fronteiras, híbridos – palavras-chave da antropologia transnacional”, Hannerz pretende localizar nos estudos antropológicos a idéia de globalização, pressupondo que a preocupação com as relações interculturais sempre estiveram presentes nesse campo. Analisa o vocabulário da antropologia transnacional, fazendo referência ao livro "Keywords", onde Raymond Williams apresentava uma investigação histórica de termos culturais e sociais, como mídia e tradição. Por fim, conclui que tais processos culturais não levam a igualdade, pois onde há luta, há também jogo.