sábado, 27 de junho de 2009

Will & Grace - Reflexões sobre a cultura do consumo - Conclusão

Will Truman, Grace Adler, Jack McFarland e Karen Walker... Todos esses quatro amigos possuem algo em comum: ambos são movidos a fetiche e dinheiro.
“Honey, dizia Karen, lembra aquela tarde em que você e eu andávamos pela Quinta Avenida e vimos um lindo anel na vitrine da Tiffany’s e você disse ‘se, um dia, eu pudesse ter um anel como esse’?” “Sim”, respondeu Grace. “Eu o comprei pra mim. Não é lindo?”, completou exibindo o anel em seu dedo.
O diálogo a seguir foi no mesmo episódio que o anterior. Jack, na expectativa de conhecer seu pai, declarou: “Não importa se é rico ou pobre, gordo ou magro, desde que seja rico e magro”. Karen (sempre ela!) respondeu-lhe: “Honey, acredite em mim. Rico e gordo também funciona”.
A liquidação da magazine Barney’s foi um verdadeiro fenômeno dentro do programa: todos os personagens passaram por ela, incluindo a Karen, que ainda levou sua empregada, Rosário. Claro que no meio da loja tinha que falar um “pelo amor de Deus, escolhe logo alguma coisa. Estou horas aqui com essa gentalha que adora uma liquidação”.
A mais empolgada com a possibilidade de comprar roupas de grife por um preço bem mais acessível era a Grace. Segundo Will, na banca de casimira em oferta ela “parece os vinte primeiros minutos de O Resgate do Soldado Ryan”. A própria definiu o modo como age diante de tal liquidação: “Nós precisamos nos concentrar. Do mesmo jeito que os tubarões são máquinas de devorar, nós somos máquinas de comprar”.
O comportamento consumista dos personagens se enquadra nas palavras de Don Slater quando o autor diz que “não consumimos com a finalidade de construir uma sociedade melhor, para sermos pessoas melhores e viver uma vida autêntica, mas para aumentar os prazeres e confortos privados”.
Já a Barney’s, bem como as demais lojas do ramo, pode ser definida no seguinte trecho de A Felicidade Paradoxal, do Lipovetsky: “Ao transformar os locais de vendas em palácios dos sonhos, os grandes magazines revolucionaram a relação com o consumo”.
Em outras palavras, consumir virou um espetáculo: desde a exibição das mercadorias nas vitrines, chamando a atenção dos eventuais consumidores que passam pelas ruas para entrarem na loja, até a disposição dos produtos pelas gôndolas em seu interior, separados por setores, onde cada um leva ao outro, construindo verdadeiros corredores harmônicos de bens esperando pelos seus futuros compradores.
Lá dentro, o ambiente é extremamente agradável, o que propicia às compras. Muita luminosidade, muitas cores, variedades, pessoas bem vestidas e, de certa forma, do mesmo nível social, já que as classes baixas se sentem intimidades e constrangidas às vezes até mesmo de entrarem na loja, uma vez que não são bem vindas, muito menos bem vistas nesses estabelecimentos.
Os produtos estão ao alcance de qualquer um. Basta pegá-los da prateleira. O consumidor pode observá-lo com muita calma, e entre as opções existentes analisar cada detalhe até a decisão de qual modelo levar. Com as magazines tornou-se possível a proximidade com os objetos de desejo sem a intermediação de um vendedor. Agora a relação é direta: comprador-produto.
Outra vantagem das grandes lojas é a variedade de marcas disponíveis. A marca é, na verdade, o real foco dos compradores. Numa hilariante cena, onde a personagem Grace ameaçava cortar a etiqueta de uma blusa recém-comprada pela Karen, esta soltou um desesperado grito de “Nãooo. Esta é a melhor parte”. Ou seja, a marca é o verdadeiro diferencial, mais um elemento construtivo de distinção, no sentido do sociólogo Pierre Bourdieu, e da formação das características de individualização de uma pessoa, isto é, sua idiossincrasia.
Os indivíduos se preocupam muito menos em atender suas necessidades, eles querem muito mais atender aos seus desejos de possuírem aquilo que lhes trará status. O produto mais caro, ou aquele que é mais valorizado simbolicamente, ou aquele que tem uma aparência bem mais moderna. O importante é não ter apenas um bem que corresponda às necessidades, já que isso estaria ao alcance de todos pelo crédito facilitado (pelo menos no que prega o discurso publicitário), e sim que proporcione uma sensação de emulação pela esfera do consumo.
O que se tornou essencial é ter o que dê prazer. E se de repente o bem possuído sair de moda, seja porque perdeu seu uso, ou por ter sido substituído por algo mais moderno, ou o que quer que seja, não tem problema: basta comprar o que há de novo, formando-se um inesgotável ciclo de substituição através da reinvenção e/ou da revolução de mercadorias já existentes pelas fábricas. A isso chamamos de lógica-moda, demasiadamente explorada pela mídia.
Lipovetsky diz que “a cultura de massa é uma cultura de consumo, inteiramente fabricada para o prazer imediato e a recreação do espírito, devendo-se sua simplicidade que manifesta”. É a cultura de massa que cria o imaginário de estilo de vida. As mercadorias não têm apenas que cumprir o papel a que se prezam, eles têm que dar ao seu dono uma sensação ao utilizá-las.
No seriado, Karen quase sempre enjoa de um bem pouco depois de tê-lo adquirido; Jack está sempre em busca das novidades mais caras do mercado ou de pertences de artistas levados a leilão, como o patinete do Ricky Martin e a plataforma da cantora Britney Spears; Will adora gastar com camisetas; e Grace com sapatos e botas, todos eles trocados a cada novo lançamento. Essa é a exemplificação perfeita da lógica-moda: os produtos são lançados para serem usados apenas enquanto nada de novo é lançado, uma vez que ultrapassado ele perde seu valor simbólico, mesmo que ainda esteja em perfeitas condições de uso. A ordem é sempre estar atualizado pelas novidades.
Aquele que não se atualiza é ridicularizado. São os chamados cafonas, bregas, sem classe, pobres, feios. A questão do gosto é demonstrada da maneira mais cruel possível. Basta prestar atenção aos comentários que a Karen faz sobre as roupas usadas pela Grace, ou o que o Jack fala das pessoas que não se enquadram no padrão de beleza vendido pela mídia, por exemplo.
Numa das cenas do seriado, uma tia da Grace estava com dor nas costas e havia pedido um analgésico à Karen que não hesitou em dizer um “como você deu mau-jeito? Quando fugia do bom gosto?”.
A crítica maior do seriado é ao hiperconsumo. O hábito de sair comprando tudo que se vê pela frente, coisas até mesmo inúteis, as quais jamais serão utilizadas, ou que não agradam aos nossos próprios gostos, somente pelo ato de exibi-las. Na concepção de Aristóteles, o seriado seria uma crítica ao tipo de vida vulgar, isto é, aquele que busca o bem-estar apenas pessoal, obtido, claro, através de compras, muitas compras.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Gramsci



Antonio Gramsci (1891 – 1937) foi um sociólogo italiano, militante nos partidos socialista e comunista de seu país em uma época onde a crise do sistema liberal abriu espaço para a ascensão dos regimes totalitários, no caso da Itália, o fascismo de Benito Mussolini é quem tinha o Estado nas mãos, sendo assim, o comunismo era visto como uma ameaça ao sistema. Em 1926 foi enviado para prisão por esse mesmo regime, onde escreveu uma de suas obras mais famosas – Cadernos do Cárcere – ficando ali até a sua morte em 1937. Muito envolvido com as questões políticas de seu tempo, acreditava que qualquer ser humano seria capaz de pensar e agir, não havendo portanto, uma separação entre as éticas do fazer e do saber, assim como a coexistência destas não era exclusividade no “homem da ciência”, no pesquisador, como defendia Max Weber. Marxista que era, Gramsci se tornou operário, adquirindo primeiro a vivência, o empírico, para depois pensar e teorizar a respeito, sendo um dos exemplos mais fiéis de materialista, onde a condição material determina o conjunto de ideias.
Dialoga conflituosamente com a Teoria das Elites, de Mosca e Pareto, que diziam que a elite era o grupo que se destacava e se sobrepunha aos demais, havendo uma tendência a paridade, por exemplo, a elite financeira tendia a ser também a elite intelectual. Esses dois autores defendiam que isso não era um problema e sim uma solução, já que haveriam algumas pessoas mais capazes de pensar que outras e portanto, essas é quem deveriam estar no poder. Tal teoria é a base da legitimidade do governo fascista, que se consideravam os legítimos herdeiros do Império Romano.
Gramsci trabalha com dois temas centrais: Teoria do Estado Ampliado e Cultura, concluindo que este primeiro além de ser o lugar de força e controle político, ocupa o lugar central na briga pelo poder e o segundo é um dos mais fortes mecanismos para manutenção do controle do Estado, já que o exercício de dominação passa por esse controle, ponto em que não se diferencia de Karl Marx.
O Estado, para Gramsci, é mais que uma instituição, é uma relação social, onde se tem a sociedade política, que em strictu sensu seria o lugar dos aparelhos de força (Forças Armadas, Polícia), ocupada pelos partidos, pelo governo e toda forma de associação com fins de intervenção política (ONG's, por exemplo), e de outro lado se tem a sociedade civil, que seria o lugar das outras instituições, dos aparelhos privados de hegemonia, por onde se constrói o consenso, que é indispensável para o Estado manter seu poder e para a classe dominante se legitimar como classe dirigente, o que acontece quando são formados jogos e composições que Gramsci chama de blocos históricos de poder, que são associações entre os grupos sociais, fortalecendo-os para a disputa pelo poder, portanto, para a disputa pelo Estado. A luta é uma luta por compor, pois só assim se poderá chegar ao poder e mantê-lo.
A hegemonia, conceito gramsciano, é o predomínio intenso e ampliado de grupos sobre outros, conjugando força e consenso, portanto, formando blocos históricos de poder, deixando a impressão de que não há resistência, uma ilusão de homogeneidade, assim, a hegemonia estaria, para Gramsci, acima da ideologia de Marx, sendo essencial para a dominação, além de se apresentar como um campo de luta, de embate, já que a toda hegemonia corresponde um movimento contra-hegemônico, lógica próxima da dialética marxista.
Na luta pela formação de consenso, a cultura possuiria um papel importante por ser o lugar central da ideologia, que de acordo com Gramsci, é própria de cada grupo social, e por ser o sistema simbólico da sociedade, por onde perpassa a construção dos símbolos, constituindo uma arena de luta pelas representações. Assim, Gramsci repensa a superestrutura de Marx, dizendo que a cultura não seria uma derivação da economia, reiterando seu papel fundamental na luta pelo poder. Propõe uma nova forma de cultura, a Cultura Nacional Popular, que seria disseminada pelo bloco histórico liderado pelos comunistas, sendo essa a verdadeira revolução, por meio da cultura, que só é possível com uma sociedade civil consolidada, realizando-se então a “revolução via ocidental”.
Como já dito anteriormente, Gramsci defende que todo sujeito é capaz de pensar e agir, portanto, todo sujeito produz cultura e todos são intelectuais orgânicos, no entanto, aqueles que pertencem às camadas subalternas não se percebem como intelectuais por conta da ideologia e seriam esses intelectuais os revolucionários, então seu lugar de produção deveria ser valorizado e sua produção reconhecida.


Mais sobre o autor: Acessa.com e Wikipedia.

sábado, 20 de junho de 2009

Will & Grace - Reflexões sobre a cultura do consumo - Parte I




“Eu sou fabulosa, certo? Eu me visto lindamente, tenho rios de dinheiro, sou quente e tenho lindos peitos”. Foi exatamente dessa forma que Karen Walker se definiu num dos episódios do seriado Will&Grace.
Empregando a metáfora do sociólogo Bauman, Karen é a "turista" por excelência, representa aquilo que todos gostariam de ser: é rica e fabulosa. Dona de uma fortuna de incontáveis milhões de dólares, tem acesso a todo e qualquer bem de consumo que quiser, quando desejar. Ela não só tem plena consciência disso, como o usa para marcar sua distinção (objeto de estudo de sociólogos como Pierre Bourdieu e Marx) em relação aos demais.
Um de seus esportes favoritos é maltratar as pessoas que estão abaixo de sua condição social. Outro passatempo adorado pela Karen é criticar o visual de Grace Adler, que também é sua amiga: cabelo, roupas, sapatos... nada escapa dos olhares críticos e dos comentários afiados da senhora Walker, que se gaba de gastar milhares de dólares com roupas e sapatos de grifes francesas.
Os empregados domésticos também são alvos de sua língua nervosa. “O que você tá fazendo dando as chaves para a empregada? Com certeza vai ter que comprar todas as suas jóias de volta”, disse à Grace quando a viu entregando as chaves de casa a uma faxineira. Nem seu advogado, Will Truman, escapa. Quando o mesmo a convidou para almoçar, ouviu um singelo “Ah, honey! Eu não almoço com os empregados”.
Seguindo com as formas de diversão preferidas da madame, aparece, também, fazer com que trabalhadores sejam demitidos, especialmente as vendedoras.
Karen foi capaz de mandar trazer de El Salvador sua empregada doméstica, Rosário Salazar, e ainda pagou ao seu amigo Jack para que se casasse com a Rose, garantindo-lhe a cidadania estadunidense.
Para ela, a felicidade está em fazer compras. Essa é a melhor forma de se desestressar. Por isso mesmo, passa boa parte do seu tempo olhando catálogos com as novidades nas coleções da estação, perfumes, maquiagens e afins. Dessa maneira, pode fazer suas escolhas até mesmo sem sair de casa e evitar olhar para as coisas que mais a incomodam: gente pobre ou mal-vestida. Livros, revistas e manuais de etiqueta e comportamento complementam sua leitura favorita e indispensável.
Karen não sente nenhum remorso por usar casacos de pele, inclusive de gatinhos, e muito menos ao admitir que seu marido é um explorador, pelo contrário, esse é mais um dos vários mecanismos de distinção que utiliza.
Não pense que a senhora Walker freqüenta apenas os ambientes e as áreas mais chiques, famosas e valorizadas de Nova Iorque. Nada disso! Pode ser vista também em lugares considerados “abomináveis” para alguém de sua classe social. Nessas ocasiões, com o pretexto de não ser reconhecida, embora não use nada além de óculos e lenço – quando usa- adota o pseudônimo de Anastácia Beaverhousen. Celebridades e outras ricaças também podiam ser vistas, todas usando seus pseudônimos, evidentemente, já que ser pego num antro desse tipo seria um enorme motivo de vergonha, tal qual nos aponta Norbert Elias, e a queda total do nível social perante as altas rodas.
Karen adora ir às magazines e aos shoppings para gastar seu dinheiro. Fazer compras é um ritual, e mais do que isso, um instrumento pelo qual, a partir de suas escolhas, pode moldar sua personalidade, construir sua identidade, a qual de preferência deve ser única, nem que para isso tenha que encomendar produtos exclusivos.
Passar em alguma loja de marca famosa é um verdadeiro compromisso em sua agenda. Basta pronunciar seu nome e logo se verá cercada por vendedores que lhe oferecem champanhe e caviar, além dos produtos mais caros disponíveis à venda. É um verdadeiro passaporte para o hedonismo.
Sem dúvida o cartão de crédito é visto como um símbolo de poder, e melhor ainda é usá-lo. A todo instante surgem novos objetos para serem devidamente consumidos: novos artigos da estação, jóias ou o que quer que lhe desperte o desejo e lhe dê prazer em adquirir, logo prontamente trocados por outros objetos, como nos mostra Bauman, no texto Turistas e Vagabundos, coonvertendo-a, nas palavras de Llpovetsky ,em uma turboconsumidora.
A forma que encontrou para obter tudo isso foi através de seu casamento. Em várias ocasiões declarou que não vai para cama com seu marido por dinheiro, e sim “por jóias, casacos de pele, ações. Como uma dama”. O amor é demonstrado pelo ato de presentear, e quanto mais caro for o presente, maior é o afeto. Tudo pode ser comprado, ou pelo menos tem um preço.
Seu melhor amigo se chama Jack McFarland, um personagem que aos trinta anos de idade ainda não se decidiu sobre o que fazer da vida e é sustentado pelos amigos. Assim como a Karen, tem um gosto bastante requintado, porém não dispõe de uma conta bancária recheada, apesar de manter a mesma pose da amiga.
Um de seus alvos prediletos é justamente seu melhor amigo, Will Truman, a quem não cansa de chamar de “gordo”, “obeso”, “baleia” e “careca”. Jack é extremamente crítico quanto à aparência física das pessoas. Para ele o corpo deve ser bem tratado, ou seja, definido, com o objetivo de ser exibido socialmente. “Uma vez vi um cara que ia tirar fungo debaixo das unhas e acabou voltando sem os dois braços. Ainda bem que ele era feio, então não foi tão triste”.
Para o Jack, motivo de vergonha seria aparecer com um parceiro que não se enquadre dentro da lógica de beleza atual. Todos seus companheiros recebem uma nota, variável de zero a dez, conforme a aparência física e o jeito de se vestir, de se comportar e, por que não, pela classe social do indivíduo.
Por conta disso, passa horas na academia durante o dia, e à noite vai a bares onde mantém “milhares de encontros” com outros caras. É um legítimo representante da classe boêmia: não está preocupado com o futuro, apenas vive o presente. Sonha com a carreira artística, tanto como ator, quanto em ser cantor, embora não consiga obter êxito algum.
Se por um lado Karen Walker é a representante legítima dos “turistas”, por outro Jack McFarland seria o representante high tech dos “vagabundos”, pois apesar de ser aquele que é sustentado por seus amigos, o personagem não está nem um pouco preocupado em reverter essa situação, já que leva uma vida de “turista”.
A série faz uma inteligente crítica social, sempre com muito humor, buscando destacar os piores aspectos da cultura do consumo. Não há o que escape das críticas: desde os meios de comunicação de massa e a chamada indústria cultural (seriados, músicas, filmes, programas de televisão, publicidade - para aprofundar, Indústria Cultural, Adorno), até mesmo o estúdio em que é produzida, a rede que a exibe e os próprios personagens.

terça-feira, 16 de junho de 2009

os pensadores, Karl Marx


Karl Heinrich Marx nunca se considerou sociólogo. Contudo, teve uma enorme importância para a Sociologia e demais ciências sociais.
Tendo como base a sociedade do século XIX, Marx tenta em sua teoria, entender seu funcionamento.
Segundo Marx é necessária a existência do homem, para que ele possa pensar. Portanto, o homem primeiro deveria produzir suas condições materiais e concretas de vida (bens necessários para existência e sobrevivência) para só depois disso, poder filosofar.
Esse processo foi chamado por ele de infraestrutura: a base econômica da sociedade. Está relacionada às formas de produção de bens necessários para a sobrevivência, onde a própria sociedade cria necessidades sempre superiores em quantidade e qualidade. Essas crescentes necessidades incentivam – segundo Marx - o desenvolvimento constante das forças produtivas. Assim, o trabalho para o homem seria indissociável da existência humana.
Daí o materialismo: o homem produzindo sua existência de forma concreta, trabalhando e produzindo as “coisas da vida”. Cada mudança na maneira de produção ou nas relações sociais de produção faz com que mude a maneira de se viver também.
Para Marx não são os pensamentos que determinam a vida; é a vida que determina os pensamentos. Essa é a base do materialismo histórico.
O materialismo histórico se dará onde a consciência do homem é determinada pela realidade social, ou seja, pelo conjuntos de meios de produção, "base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas de consciência social determinada".
O estado burguês institui a idéia de igualdade, liberdade e fraternidade, conseguindo com isso, a dominação através de sua ideologia. A revolução burguesa é um sistema produtivo de inversão de valores que se mantém principalmente pela superestrutura.
A superestrutura reafirma este modo de vida como correto, a fim de manter o sistema. É a filosofia contribuindo para a formação do Estado burguês. Pode-se, portanto, definir superestrutura como o Estado, as Leis, as Normas. É o poder vindo de cima para baixo, ‘dizendo’ que existe a lei e esta tem que ser respeitada.
Para Marx, os trabalhadores deveriam servir de alavanca para derrubar as bases econômicas em que se fundamenta a existência das classes, e, por conseguinte, a dominação de classes.
No modo produção capitalista a acumulação do capital só reproduz a relação de dominação e exploração numa escala progressiva: com mais concentração de renda por um lado, e com mais assalariados por outro. O que recria o proletariado não é apenas a pobreza natural, mas a pobreza artificialmente provocada. Tendo o poder econômico e político nas mãos, a burguesia faz um discurso que convence os trabalhadores de que a proposta de modernidade seria o melhor para o futuro.
A história humana, determinada pelas contradições nos modos de produção, implica a dominação de uma classe social por outra, acabando por instituir a luta de classes (burguesia x proletariado). Essas duas classes mantêm uma oposição de valores e de interesses, sendo produto da propriedade privada, e sempre existirão em função dela. Essa oposição consiste na luta de classes, luta constante entre interesses opostos embora esse conflito nem sempre se manifeste socialmente sob a forma de guerra declarada.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

"Ladrão que rouba ladrão,...", já dizia o dito popular


Muitas são as críticas direcionadas aos meios de comunicação de massa, especialmente no que diz respeito às formas de construção de realidade por eles mediada.
Não se trata necessariamente de realidades forjadas, mas a escolha repetida dos mesmos enquadramentos faz com que as narrativas desses meios assumam, minimamente, um caráter tendencioso. Sempre as mesmas vozes são escutadas, as de especialistas, autoridades, peritos para cada área abordada, o que a princípio pode nos dar a impressão que são as pessoas que melhor entendem sobre o tema.
Isso certamente compromete o conteúdo do que é veiculado, uma vez que sabemos que a realidade é sempre mais complexa, que outras perspectivas alteram a noção do fato, do acontecimento, mas como são sempre as mesmas vozes a falar, podemos concluir que diversas outras são caladas.
Assistindo ao Fantástico dia 14 de junho de 2009, domingo passado, uma notícia me despertou grande curiosidade.


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Acusações de corrupção, proferidas por Juan Carlos Ramirez Abadia contra a polícia de São Paulo e DETRAN estão gerando um grande desconforto para essas instituições e seus membros, sendo usadas inclusive como foco das investigações da Corregedoria de São Paulo.
Para situar um pouco, Juan Carlos Ramirez Abadia, na própria reportagem é descrito como acusado de lavagem de dinheiro, homicídios e por chefiar cartéis de drogas. Ora, de certo não se trata de uma pessoa de lisura moral, socialmente admirável, porém seu depoimento é tomado como central para as investigações sobre o caso de corrupção do DENARC e do DETRAN. Detalhe importante, ele está preso,agora nos Estados Unidos, aguardando julgamento.
Quantas vezes um traficante qualquer, não falou em juízo que vendia armas aos policiais, que a eles pagavam propina, davam drogas? Agora, por que quando Abadia fala, vira notícia do Fantástico?
Proponho algumas alternativas:
a) Trata-se de uma nova tendência do jornalismo em escutar outras vozes, que não as normalmente consagradas.
b) O governo de São Paulo acredita no compromisso com a verdade de Abadia, e por isso seu depoimento é legítimo, absolutamente verdadeiro, logo deve ser investigado exatamente como foi dado.
c) Abadia é sem dúvida a voz mais competente para versar sobre o caso, afinal é um grande “bandido”, logo entende perfeitamente o universo que está denunciando, é certamente uma voz autorizada, um perito do assunto.
d) A presente autora precisa ver mais noticiários televisivos.
e) Monte você uma alternativa...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cidades Modernas - Elias (conclusão)



Seguindo Elias, as cidades modernas instituíram um novo estilo de vida, o ethos moderno, bem diferente do medieval. Com base nesse novo modo de viver, foram estabelecidas regras daquilo que seria elegante ou cafona, refinado ou rústico, educado ou bronco. São as regras de etiqueta que refinaram o jeito de agir dos indivíduos, com direito a elaboração de manuais explicativos e tudo mais.
O ethos moderno também trouxe as chamadas políticas de contenção. Na cidade moderna não eram mais bem vistas manifestações exageradas em públicos, seja de afeto, emoção ou raiva. Novamente fortaleceram-se o individualismo e o racionalismo, típicas características do capitalismo burguês. A diplomacia substituiu as batalhas travadas com as espadas. A palavra ganhou força. Os sujeitos passaram a se auto-controlarem, ao passo em que eram controlados na mesma medida. O Estado burguês ganhou legitimidade e autoridade sobre os cidadãos. O ideal de nação veio à tona com tudo.
Caímos em mais uma esquizofrenia da sociedade burguesa. O Estado, dentro de regimes que se afirmam republicanos e/ou democráticos, afirma que perante ele todos são iguais. Os indivíduos só são iguais, só são uma unidade apenas em situações específicas, nas quais interessem ao Estado, por exemplo em eleições. Nesse caso sim, todos são iguais. Afinal, voto não tem classe social, cor, origem geográfica. A própria população cria maneiras de distinção, seja pelos locais freqüentados, vestes, gostos pessoais etc. Qualquer coisa serve para diferenciar-se e pejorativar o próximo.
Mas, indiscutivelmente, uma das maiores maldades da sociedade burguesa é a idéia da possibilidade de ascensão social. Não que seja impossível, mas é pouco provável. A todo o momento somos obrigados a assistir - e isso é cruelmente alimentado pela mídia - que fulano estava no local certo na hora certa, que beltrano ganhou na loteria porque - graças a Deus - sonhou com os números sorteados, que cicrano ganhou um ótimo contrato após ser atropelado por um agente de alguma agência de modelos, que o menino que fazia umas embaixadinhas nos semáforos em troca de umas moedinhas para sobreviver foi “achado” por um olheiro e transformou-se em fenômeno do futebol, e o sujeito trabalhador esforçado não consegue sair da sua mesma vidinha de classe popular oprimida. Desenvolve-se na cabeça desse sujeito o sentimento de ser azarado, quando na verdade ele é apenas mais um na multidão de “pés-frios”.
Nesse momento em que o indivíduo se enxerga como um derrotado ele está naturalizando, introjetando uma determinada visão, ele está criando um Habitus. A idéia de que ele é um frustrado, fracassado por natureza, naturalizando algo que não é real. Ele é apenas uma vítima do regime burguês, e não um esquecido do acaso ou de Deus. Mais uma vez a burguesia cria problemas psicológicos nos cidadãos, instituindo medos interiores, criando verdadeiros campos de batalha dentro dos indivíduos e indiferença entre os desconhecidos.
As cidades modernas estabeleceram relações pesadas de distinção: especialização, letramento e até mesmo motivos de vergonha. O que é bom para as classes populares é quase sempre ridicularizado pelas elites. Chorar aos berros, faltar com modos de refinamento nas refeições, cometer erros na pronúncia é um escândalo para as elites, conquanto não gostar de ritmos como pagode e samba e detestar futebol pode vir a ser uma vergonha para alguém das classes populares.
Em suma: nas cidades modernas, estabeleceu-se a máxima de que ser diferente do próximo é o “algo a mais” do momento.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

FHC x Weber


Hoje, na aula inicial sobre Weber, falei sobre a ética do fazer e do saber, a da vocação política e da vocação da ciência, ou, em outra tradução, sobre a qual falarei na próxima aula, entre a ética das convicções e a ética da responsabilidade.

Comentei sobre a polêmica declaração de FHC, qdo presidente do BR, utilizando-se dessa distinção.

Indico aqui um link com um instigante artigo, do jornalista Haroldo Ceravolo Sereza , sobre o tema. Vale uma boa reflexão.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Lugares "autorizados" de fala e produção de saber

Uma das coisas que mais me instiga enquanto estudante que pretende seguir na área acadêmica é justamente de que forma meu trabalho, minhas pesquisas, estudos, financiados com dinheiro público, retornarão à sociedade, quem financia através dos azedos impostos, meus serviços.
E ainda que não fosse financiado pelo Estado, se a proposta é estudar a sociedade, culturas, políticas, enfim o mundo em que vivemos, de que isso adianta se não é revertido em forma de diálogo, interação com o objeto?Seria o objeto apenas interessante enquanto matéria prima para análise?


Já são escassas as formas de intervenção civil, social, em instituições de poder, como por exemplo, percebemos na grande mídia, cuja dominância encontra-se concentrada nas mãos de algumas restritas famílias. (como discute o post da Gyssele: http://blogdogrecos.blogspot.com/2009/05/uma-velha-discussao.html). Todavia, o que a mim impressiona, é ver esse mesmo distanciamento, isolamento dos processos de construção de saber,nas areas acadêmicas, intelectuais, reproduzir , em alguns níveis, a mesma lógica que muitas vezes criticam.

Fóruns de debates, congressos, seminários, instâncias onde estudos são repensados, críticas são elaboradas, em alguns casos são fechados exclusivamente para a classe. Entendo que processo de produção destes trabalhos seja diferenciado, atingem uma complexidade que de fato os distingue, mas de forma alguma isso deveria ser empecilho para o diálogo com os não pares, oriundos de outras áreas de saber, com outras maneiras de complexificar, acrescentar às questões.

Estratégias de legitimação dos lugares autorizados de falas, no caso acadêmico, muitas vezes se manifestam de forma tão despótica, que podemos questionar se essas falas, mesmo quando propõem mudanças sociais, indicam problemas e ações, não são apenas uma roupagem diferente para a mesma lógica hegemônica que combatem.

Talvez a afirmação anterior possa soar muito dura, e obviamente não podemos generalizar todos os fóruns de discussões, mas o que pretendo aqui é evidenciar que a valorização e condição do distanciamento das faculdades de saber, para que a produção seja feita com excelência, muitas vezes compromete seu potencial impacto sobre a sociedade em que estão inseridos, a quem deveriam prestar conta.

Não seria a função desses intelectuais, além de elaborar reflexões sobre a sociedade em que atuam também traduzi-las, para que possam circular e ser apropriadas por outros atores sociais e em outros meios, que não os academicamente consagrados?

À luz dessa questão, exemplifico uma iniciativa que justamente desafia os padrões de distanciamento, isolamento, faz questionamentos inteligentes, politicamente engajados apropria-se de um meio de comunicação de massa, a TV, em formato popular, numa mescla de telejornal e programa de auditório, e, portanto dialogando com a sociedade: o programa CQC. (Custe o que Custar)

"Vai ser fácil reconhecer a trupe do CQC. Afinal de contas, são sete homens vestidos de terno preto, usando inseparáveis óculos escuros. Mas a principal marca do time "Custe o que custar" é a irreverência.
Com humor inteligente, audacioso e muitas vezes ácido, o programa faz um resumo semanal das notícias, e nessa varredura dos fatos importantes, sob o olhar atento do CQC, ninguém escapa. No estúdio, quartel general do CQC, Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque assumem a bancada, e além de conduzir o programa ao vivo terão a missão de comentar livremente os principais assuntos da semana.”
(retirado na íntegra do site oficial do programa: http://www.band.com.br/cqc/oprograma.asp)

Não são intelectuais stricto sensu, na maioria jornalistas e atores, mas propõem de forma inovadora, a ocupação de espaços, de formatos que já dialogam com grandes públicos, com conteúdos diferenciados, contestadores. Desafiam e questionam seus “semelhantes”, outros jornais, desde políticos ,celebridades,dentre outros “personagens” de destaque nos noticiários semanais.

Segue uma amostra do trabalho que eles desenvolvem:

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Trata-se de um exemplo que demonstra uma eficaz forma de apropriação de formatos consagrados, e muitas vezes repudiados por uma elite intelectual, que no entanto, causam mais impacto do que alguns anos de pesquisa empoeirados.

P.S- O teor um tanto acre desse post tem uma razão: a negação do direito da aluna que vos escreve em participar da COMPÓS 2009, nem como ouvinte. Alegou a coordenação que não seriam aceitos nenhum ouvinte, acrescentando que se tratava de um congresso apenas para a pós graduação, logo minha presença se fazia inapropriada de qualquer forma...

domingo, 7 de junho de 2009

"Persépolis" e identidades no mundo contemporâneo

Ana Beatriz Paes
Persépolis, 2007 ( França, Estados Unidos)
Gênero: animação, drama
Duração: 95min
Tipo: longa metragem/ P&B/ Cor
Diretores: Vicent Paronnaud, Marjane Satrapi
Roteiristas: Vicent Paronnaud, Marjane Satrapi

Sinopse: "PERSÉPOLIS é a história comovente de uma menina que cresce no Irã durante a Revolução Islâmica. É através dos olhos da precoce e extrovertida Marjane, de 9 anos, que vemos a esperança de um povo ser destruída quando os fundamentalistas tomam o poder, forçando as mulheres a usar o véu e mandando para a prisão milhares de pessoas. Inteligente e destemida, Marjane consegue fintar os “guardas sociais” e descobre o punk, os Abba e os Iron Maiden. Mas, quando o seu tio é cruelmente executado e as bombas começam a cair sobre Teerã durante a guerra Irã/ Iraque, o medo diário que invade o cotidiano do Irã torna-se palpável. À medida que vai crescendo, a ousadia de Marjane torna-se uma constante fonte de preocupação para os seus pais que temem pela sua segurança. Assim, aos 14 anos, tomam a difícil decisão de enviá-la para uma escola na Áustria. Vulnerável e sozinha numa terra estranha tem que enfrentar as típicas contrariedades dos adolescentes. Além do mais, Marjane é confundida com o fundamentalismo religioso e o extremismo, exatamente as coisas de que fugiu no seu país. Com o tempo, acaba por ser aceita e até conhece o amor, mas com o fim da escola começa a sentir-se sozinha e cheia de saudades de casa.
Apesar de isso significar ter que pôr o véu e viver numa sociedade tirânica, Marjane decide regressar ao Irã para estar mais perto da sua família. Após um difícil período de ajustamento, entra para uma escola de artes e casa-se, embora continue a levantar a sua voz contra a hipocrisia a que assiste. Aos 24 anos, percebe que, apesar de ser profundamente iraniana, não pode continuar a viver no Irã. É então que toma a dilacerante decisão de trocar a sua terra natal pela França, cheia de otimismo em relação ao futuro, moldada indelevelmente pelo seu passado."
(retirada na íntergra do endereço: http://www.cineclube.org/programacao/art.php?artid=250)

O filme Persépolis é um belo objeto para pensarmos identidade e suas negociações no mais diversos âmbitos: individual, social, local e global. Vale lembrar que esse filme foi inspirado nas histórias em quadrinhos de Marjane Satrapi que são de cunho autobiográfico.

Pretendo me ater ao máximo às questões de identidade, apesar de saber que outras temáticas abordadas, tais como religião, política, femininsmo,dentre outras, sejam indissociáveis para tratarmos do tema.


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Inspirada pela discussão do texto "Paraísos Comunais: identidades e significado na sociedade de rede", do livro: "O poder da Identidade. Volume II" de Manuel Castells, procuro aqui discutir os processos de construção de identidades , as relações entre elas , seus usos , mudanças e conflitos em único sujeito, de acordo com seu contexto sócio-cultural.

Marjane desde sua infância está inserida em um complexo contexto histórico, social e cultural. Seu processo de construção identitária, interpretando e reagindo ao universo que a envolve reflete tal complexidade.

O início do filme demonstra um conflito entre as influências das (in)formações ideológicas institucionais, no caso da escola conservadora e das familiares, no caso uma família de ideais revolucionários, na formação da identidade da menina. Neste exemplo, a lógica predominante escolhida por ela não foi a mesma à oficial do país. Ela inicialmente confronta sua família com o ideal que lhe parece correto, o que aprendeu na escola, e então o pai apresenta-lhe uma outra perspectiva sobre a mesma estória, e essa é a que a Marjane assume como verdade.

Adaptando essa passagem aos conceitos de Castells, poderíamos dizer que essa mudança ideológica fez com que ela transitasse de uma "identidade legitimadora- introduzida pelas instituições dominantes da sociedade, no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais", à uma "identidade de resitência- criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica de dominação, construindo assim trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade. "

Em outra passagem, já em Viena e em delicada fase de adaptação, sente-se desconfortável pelo estigma que carrega por ser Iraniana, por ser traduzida como fundamentalista ou "sem maneiras". Encontra a princípio, maior afinidade com um grupo de estudantes de idéias alternativas, anti-hegemônicas,onde sentia-se aceita justamente por ser exótica. Ao passar do tempo, observando o exacerbado niilismo europeu contraposto à sua convicção, vivência política concreta, mais uma vez torna a sentir-se deslocada, reforçando seu caráter estrangeiro, deslocada.

A trama desenvolve-se juntamente com a abordagem desta crise de identidade da protagonista, e as formas como ela tem que se moldar para sobreviver aos mais variados contextos que transita.

Em um dos momentos de crise por exemplo, em uma festa, ao conhecer um rapaz, nega sua nacionalidade e se diz francesa. Ao conversar com ele, marca um lugar de intelectual, discute sobre grandes nomes da filosofia, sociologia, teóricos políticos ocidentais, e quando perguntada sobre sua origem, diz ser da França. Sentindo-se mal pelo feito, volta para casa e então é "seguida" pela sombra de sua avó, representante simbólica de sua consciência, de seus valores, e então sente-se muito mal.

Um outro exemplo, capaz de dar conta da outra identidade considerada por Castells, é quando já de volta ao Irã, Marjane e suas amigas, em uma volta de carro, retira seu véu, e dirige com cabelos soltos ao vento. Podemos considerar tal postura como a de assumir uma "identidade de projeto, quando atores sociais, utilizando-se qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social."

Inúmeros outros exemplos poderiam ser citados no transcorrer do filme, e obviamente outras interpretações sobre os mesmo poderiam ser realizadas.Portanto, vale a pena assisti-lo e tirar suas próprias conclusões!

A proposta deste post é justamente refletir sobre os vários posicionamentos identitários cabíveis aos indivíduos, atores sociais, quando confrontados com contextos variados.

De que formas reagimos a estímulos ambientais e quais são seus reflexos nas manifestações aparentes, externas, de nossas processualmente construídas identidades? Até que ponto estamos disponíveis para questionar e quem sabe mudar nossas posturas frente à realidades em constante alterações? Vale à pena pensar...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Cidades Modernas - Simmel (parte II)


Simmel focou seus estudos numa visão mais filosófica e psicológia dos indivíduos, descrevendo os conflitos do homem urbano.
Após a consolidação das grandes cidades, houve uma brusca ruptura do modo de viver (ethos). O ritmo de vida tornou-se bem mais acelerado, os horários supervalorizados - ser pontual virou uma proeza, e as pessoas ficaram mais afastadas uma das outras, distanciamento justificado pelo fato da vida urbana ter criado uma espécie de reserva entre os indivíduos, os quais não paravam mais para conversar ou simplesmente para cumprimentar uns aos outros. Todos passaram a ser desconhecidos, anônimos numa multidão. O ser humano virou antipático, até por uma postura de defesa aos perigos tipicamente metropolitanos. Ninguém se conhece mais, ninguém sabe o que o outro faz, quem é seu vizinho. O resultado disso foi o fortalecimento da estranheza, aversão e até mesmo repulsão ao próximo.
As mudanças proporcionadas pela vida urbana trouxeram uma nova curiosidade: o potencial de metamorfose. Os sujeitos começaram a montar diferentes construções de si, ou seja, de sua imagem pública, assumiram múltiplos papéis sociais, e, dentro de suas possibilidades, trocam visual, estilo, interesses ou o que quer que seja em tempo recorde. Obviamente até para se cambiar há um limite, embora haja uma gama enorme de possibilidades de metamorfoses.
Os grandes centros possuem uma enorme concentração econômica, estabelecendo relações de poderio. O ser humano descobre seu lado calculista, individualista, impessoal, passando a agir com a cabeça em vez do coração, reduzindo-se assim o peso da consciência subjetiva, para valorizar a consciência objetiva. Forma-se um claro desequilíbrio de consciências, induzindo as pessoas a levarem uma vida mais racional, refletindo na hora da construção de seu projeto de vida. As relações entre os indivíduos passaram a ser mediadas a partir de interesses diferenciados, de egoísmos econômicos, estruturadas em relações de constante instabilidade. Simmel chama esse tipo de interação de sociação.
Em síntese: a cidade proporcionou um potencial de metamorfose jamais visto ao longo da história da civilização humana, entretanto essa metamorfose, em geral, depende mais do que qualquer coisa de seu campo de possibilidades.
A todo instante as pessoas são estimuladas a fazerem o que quiserem, a comprarem, a viajarem etc, e esse estilo de vida é alimentado com a ajuda da mídia. Mas, na realidade, sabemos que esse modo de viver não é para todos. Os planos de vida somente são possíveis àqueles que têm um certo grau de conhecimento e potencial consumidor. A população das classes mais baixas não consegue ver no horizonte um futuro diferente daquele em que vive. O plano de vida lhe é quase imposto: trabalhar para se sustentar e sustentar aos eventuais filhos, que em não raras ocasiões vem ainda na adolescência.
Recaímos em mais uma esquizofrenia burguesa: ao mesmo tempo em que a burguesia cria a idéia de que cada indivíduo tem sua personalidade única, singular, com suas particularidades e seu plano de vida que o distingue dos demais indivíduos, transformando-o em pessoa, ela cria condições de concentração de renda que reduzem vertiginosamente o campo de possibilidades dos indivíduos de baixa renda, minando, inclusive, seu potencial de metamorfose, e conseqüentemente de diferenciação.
A burguesia criou o paradoxo das modernas sociedades urbano-industriais, e com ele sérias conseqüências e conflitos psicológicos, cujo preço é alto. As pessoas vivem angustiadas com o anonimato, sentem-se solitárias, hiperestimuladas o tempo inteiro. Para completar, eis que surge o que Simmel chama de atitude blasé, que é justamente o esgotamento, a saturação das energias, incapacitando os indivíduos de reagirem a novas situações.
O dinheiro torna-se o símbolo da vida moderna por ser impessoal, racional, burocrático, anti-social e individual, bem aquilo que as pessoas e as cidades modernas se transformaram.