domingo, 7 de junho de 2009

"Persépolis" e identidades no mundo contemporâneo

Ana Beatriz Paes
Persépolis, 2007 ( França, Estados Unidos)
Gênero: animação, drama
Duração: 95min
Tipo: longa metragem/ P&B/ Cor
Diretores: Vicent Paronnaud, Marjane Satrapi
Roteiristas: Vicent Paronnaud, Marjane Satrapi

Sinopse: "PERSÉPOLIS é a história comovente de uma menina que cresce no Irã durante a Revolução Islâmica. É através dos olhos da precoce e extrovertida Marjane, de 9 anos, que vemos a esperança de um povo ser destruída quando os fundamentalistas tomam o poder, forçando as mulheres a usar o véu e mandando para a prisão milhares de pessoas. Inteligente e destemida, Marjane consegue fintar os “guardas sociais” e descobre o punk, os Abba e os Iron Maiden. Mas, quando o seu tio é cruelmente executado e as bombas começam a cair sobre Teerã durante a guerra Irã/ Iraque, o medo diário que invade o cotidiano do Irã torna-se palpável. À medida que vai crescendo, a ousadia de Marjane torna-se uma constante fonte de preocupação para os seus pais que temem pela sua segurança. Assim, aos 14 anos, tomam a difícil decisão de enviá-la para uma escola na Áustria. Vulnerável e sozinha numa terra estranha tem que enfrentar as típicas contrariedades dos adolescentes. Além do mais, Marjane é confundida com o fundamentalismo religioso e o extremismo, exatamente as coisas de que fugiu no seu país. Com o tempo, acaba por ser aceita e até conhece o amor, mas com o fim da escola começa a sentir-se sozinha e cheia de saudades de casa.
Apesar de isso significar ter que pôr o véu e viver numa sociedade tirânica, Marjane decide regressar ao Irã para estar mais perto da sua família. Após um difícil período de ajustamento, entra para uma escola de artes e casa-se, embora continue a levantar a sua voz contra a hipocrisia a que assiste. Aos 24 anos, percebe que, apesar de ser profundamente iraniana, não pode continuar a viver no Irã. É então que toma a dilacerante decisão de trocar a sua terra natal pela França, cheia de otimismo em relação ao futuro, moldada indelevelmente pelo seu passado."
(retirada na íntergra do endereço: http://www.cineclube.org/programacao/art.php?artid=250)

O filme Persépolis é um belo objeto para pensarmos identidade e suas negociações no mais diversos âmbitos: individual, social, local e global. Vale lembrar que esse filme foi inspirado nas histórias em quadrinhos de Marjane Satrapi que são de cunho autobiográfico.

Pretendo me ater ao máximo às questões de identidade, apesar de saber que outras temáticas abordadas, tais como religião, política, femininsmo,dentre outras, sejam indissociáveis para tratarmos do tema.


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Inspirada pela discussão do texto "Paraísos Comunais: identidades e significado na sociedade de rede", do livro: "O poder da Identidade. Volume II" de Manuel Castells, procuro aqui discutir os processos de construção de identidades , as relações entre elas , seus usos , mudanças e conflitos em único sujeito, de acordo com seu contexto sócio-cultural.

Marjane desde sua infância está inserida em um complexo contexto histórico, social e cultural. Seu processo de construção identitária, interpretando e reagindo ao universo que a envolve reflete tal complexidade.

O início do filme demonstra um conflito entre as influências das (in)formações ideológicas institucionais, no caso da escola conservadora e das familiares, no caso uma família de ideais revolucionários, na formação da identidade da menina. Neste exemplo, a lógica predominante escolhida por ela não foi a mesma à oficial do país. Ela inicialmente confronta sua família com o ideal que lhe parece correto, o que aprendeu na escola, e então o pai apresenta-lhe uma outra perspectiva sobre a mesma estória, e essa é a que a Marjane assume como verdade.

Adaptando essa passagem aos conceitos de Castells, poderíamos dizer que essa mudança ideológica fez com que ela transitasse de uma "identidade legitimadora- introduzida pelas instituições dominantes da sociedade, no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais", à uma "identidade de resitência- criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica de dominação, construindo assim trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade. "

Em outra passagem, já em Viena e em delicada fase de adaptação, sente-se desconfortável pelo estigma que carrega por ser Iraniana, por ser traduzida como fundamentalista ou "sem maneiras". Encontra a princípio, maior afinidade com um grupo de estudantes de idéias alternativas, anti-hegemônicas,onde sentia-se aceita justamente por ser exótica. Ao passar do tempo, observando o exacerbado niilismo europeu contraposto à sua convicção, vivência política concreta, mais uma vez torna a sentir-se deslocada, reforçando seu caráter estrangeiro, deslocada.

A trama desenvolve-se juntamente com a abordagem desta crise de identidade da protagonista, e as formas como ela tem que se moldar para sobreviver aos mais variados contextos que transita.

Em um dos momentos de crise por exemplo, em uma festa, ao conhecer um rapaz, nega sua nacionalidade e se diz francesa. Ao conversar com ele, marca um lugar de intelectual, discute sobre grandes nomes da filosofia, sociologia, teóricos políticos ocidentais, e quando perguntada sobre sua origem, diz ser da França. Sentindo-se mal pelo feito, volta para casa e então é "seguida" pela sombra de sua avó, representante simbólica de sua consciência, de seus valores, e então sente-se muito mal.

Um outro exemplo, capaz de dar conta da outra identidade considerada por Castells, é quando já de volta ao Irã, Marjane e suas amigas, em uma volta de carro, retira seu véu, e dirige com cabelos soltos ao vento. Podemos considerar tal postura como a de assumir uma "identidade de projeto, quando atores sociais, utilizando-se qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social."

Inúmeros outros exemplos poderiam ser citados no transcorrer do filme, e obviamente outras interpretações sobre os mesmo poderiam ser realizadas.Portanto, vale a pena assisti-lo e tirar suas próprias conclusões!

A proposta deste post é justamente refletir sobre os vários posicionamentos identitários cabíveis aos indivíduos, atores sociais, quando confrontados com contextos variados.

De que formas reagimos a estímulos ambientais e quais são seus reflexos nas manifestações aparentes, externas, de nossas processualmente construídas identidades? Até que ponto estamos disponíveis para questionar e quem sabe mudar nossas posturas frente à realidades em constante alterações? Vale à pena pensar...

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