quinta-feira, 22 de junho de 2017

Skolors: uma celebração das "brasilidades"?


A campanha Skolors, da marca de cerveja Skol, elabora mais uma tentativa de se distanciar da imagem hegemônica do que se entende como um comercial de cerveja. Nessas peças publicitárias, a marca compra outra briga com um aspecto enraizado na estrutura social brasileira: o racismo. A proposta é celebrar a diversidade da população brasileira com latas de cinco cores diferentes com alguns tons de pele; as cores do Brasil. 

Esta não é a primeira vez que a empresa tenta se desvincular de sua imagem anterior e coloca outros paradigmas em seus comerciais. A ação promovida em março deste ano, para dialogar com o Dia Internacional da Mulher, é também um exemplo. Nela, mulheres foram convidadas a reformular antigas campanhas machistas e misóginas da marca e transformá-las em um novo material, positivamente diversas feminilidades e formas de ser.  

O momento é mais que oportuno para a elaboração de peças publicitárias como esta. A atual conjuntura dos movimentos sociais que embarcam na arena de disputas discursivas abre campo para a luta pelo poder de também significar o mundo e a sua própria realidade. Esta luta pela disputa de sentidos se traduz nas reivindicações de reconhecimento e reparação (SAILLANT, 2015). No caso da campanha Skolors, o reconhecimento e reparação dos grupos raciais: negros e mestiços. 

Nesta arena de disputas, no que tange os estímulos dos meios de comunicação de massa, o que emerge são as relações de contenção e resistência, propostos por Stuart Hall em muitos de seus escritos. Dois momentos dialéticos, entre os produtos da indústria cultural e as “massas” que o consomem. A contenção se caracteriza pela assimilação destes produtos; uma forma de “aceitar” essas produções, apropriar-se destes produtos. Já o momento de resistência, pauta-se na negociação ou total negações dos signos. Estas dinâmicas constantes são os que colaboram com o que se entende como os processos de mediação, teoria analítica proposta por Mártin-Barbero em sua obra Dos meios às mediações, as relações entre a sedução e a negação. Nesta proposta o autor propõe um rompimento com os binarismos, afirmando que este olhar sobre os processos culturais enfraquece a percepção das contradições e das lutas.

De acordo com o que discorre Stuart Hall, no texto A identidade cultural na pós-modernidade, o sujeito pós-moderno percebe-se em um constante processo identitário. Em decorrência de um deslocamento das estruturas, uma descentralização do poder que corrobora na aparição de uma pluralidade de centros de poder, o sujeito pós-moderno aciona processos identitários também descentralizados que podem ser opostos e contraditórios, que, por vezes, pouco tem a ver com as associações discursivas instituídas. 

Decerto, as identidades nacionais também são afetadas por esse processo. Ainda em consonância com Hall (1992), o bom velhinho, a identidade nacional constrói-se na intenção de unificar as diferenças através de conquistas violentas, pauta-se na valorização e na supressão de certos atributos para a elaboração de um ideal de nação; determina, de diversas formas, o diferente, e, naturalmente, opõe à ele. A identidade nacional é uma forma estanque de entendimento sobre uma comunidade imaginada (ANDERSON, 2008), mas que ainda está sujeita aos seus processos internos de contradição. 

Voltando à campanha publicitária, o que vemos é que ela se esforça em transparecer esta identidade nacional. Propõe-se a expressar uma “brasilidade” elaborada aos moldes da famigerada “democracia racial”. O rompimento com a antiga imagem da empresa associada a mulheres de biquíni perfeitamente adequados aos padrões de beleza estabelecidos, migrando para uma perspectiva mais consciente da pluralidade e diversidade da população se faz possível através de reivindicações elaboradas por políticas de identidade (Hall, 1992; Woodward, 1997) que são muito pertinentes para a garantia de políticas públicas coerentes a estas reivindicações. 

Por outro lado, também opera nos moldes capitalistas de elaboração de mercado. Um processo característico da virada do século XX para o XXI. Muniz Sodré (1999), em sua obra Claros e escuros: Identidade, povo e mídia no Brasil, argumenta, brilhantemente, sobre a percepção da camada negra da população brasileira que, naquele momento, se encontrava de fora dos esquemas de representação trabalhos no marketing e na publicidade de produtos de toda sorte. O autor afirma que, neste período, as camadas negras da população são percebidas como nicho de mercado e dá indícios de que isto teve seu início nos centros de pesquisa universitários sobre cultura e negritude e destaca a importância da revista Raça para promover a estabilidade deste âmbito. De toda forma, o que podemos compreender deste quadro é que as políticas de identidades também são políticas econômicas e operam tanto para o "bem" de quem reivindica quanto para o capital.

Veja o vídeo da campanha Skolors abaixo:



Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A cultura como recurso – desdobramentos dos Estudos Culturais, uma entrevista com George Yúdice*



No que tange a importância dos estudos sobre os usos das formas culturais, George Yúdice, tem muito a nos ensinar. O Diretor do Departamento de Línguas e Culturas Modernas da Universidade de Miami, em seu livro "A conveniência da cultura: usos da cultura na era global" disserta como são possíveis as articulações da cultura na contemporaneidade e os descreve como um recurso que opera na ambivalência. Seus usos e apropriações operam tanto àqueles que reivindicam políticas de identidade quanto ao Estado, que, por sua vez, detém do poder de validação e reconhecimento destas políticas. O autor americano também comenta que esses movimentos de usos da cultura são convenientes ao capital, cerceia a cultura como lugar de comodidade e limita as lutas ao discurso.

Em uma entrevista, concedida às professoras Marisa Vorraber Costa e Maria Lúcia Castagna Wortmann, em 2015, Yúdice comenta sobre os desdobramentos dos Estudos Culturais e os esquemas da pluralidade cultural brasileira e da América Latina de forma geral. Leia a entrevista completa abaixo.

Maria Lúcia: Professor Yúdice, eu inicio lembrando um antigo texto seu, intitulado O “Estado das Artes” dos Estudos Culturais, publicado no ano de 1993, no Brasil, em um livro intitulado Comunicação e Cultura Contemporânea. Naquele texto, que foi o primeiro que eu li sobre Estudos Culturais, o senhor fez uma resenha das vertentes inglesas, estadunidenses e latino-americanas dos Estudos Culturais. Eu gostaria de saber, passados tantos anos, como o senhor vê o desenvolvimento dos Estudos Culturais nessas três realidades? E, ainda, a partir da proposta do Centro de Birmingham, que aspectos o senhor considera terem sido abordados mais distintivamente nessas vertentes?

George Yúdice: Bem, eu acho que no caso da Inglaterra e dos países da Commonwealth houve uma preocupação com as políticas culturais e a sua incorporação aos Estudos Culturais. Isso gerou uma tensão, pois os Estudos Culturais analisam as relações de poder que estão na sociedade e que perpassam a cultura. Aliás, a cultura é o lugar onde concorrem diversos grupos de interesse, e a política cultural tem um programa muito mais pragmático, voltado a mostrar como se organiza a cultura, como ela se financia etc. A novidade que ocorreu, quando eu estava escrevendo aquele texto, foi a virada do contexto inglês e a do australiano. Mais ou menos, nessa mesma época, alguns intelectuais latino-americanos também se preocuparam com a questão da política cultural, principalmente no México, onde Garcia Canclini e outros colegas começaram a refletir sobre o que seria aceitar o Acordo de Livre Comércio (ALCA) com os Estados Unidos. Tal acordo obrigou os professores e os intelectuais a pensarem nas várias repercussões que teriam a ver com questões legislativas, no que diz respeito à cultura. Nesse momento, portanto, eu acho que se iniciou o desenvolvimento desta nova orientação dos Estudos Culturais, não mais somente centrada na questão da hegemonia gramsciana, que era o prato forte dos Estudos Culturais britânicos, mas destinada a estudar outras questões. Nos Estados Unidos, os Estudos Culturais basicamente continuam desenvolvendo estratégias no que tange às relações das minorias: mulheres, minorias sexuais, homossexuais, lésbicas, etc. Hoje, tanto no contexto europeu quanto no latino-americano, está se ponderando sobre as políticas públicas no campo da cultura, como vemos, com muito mais força do que antes.

M. L.: Então, nesse sentido, seu trabalho anda numa direção diferente desses estudos, porque, a partir da leitura de seu livro A conveniência da cultura: os usos da cultura na era global, algo que verdadeiramente me impressionou foi a amplitude e a diversidade de aspectos que o senhor aborda. Parece-me que seu trabalho lida com uma diversidade de movimentos sociais, transita pelas esferas institucionais e pelas organizações não governamentais (ONGs). O que me impressionou foram as muitas incursões que o senhor faz, nesse livro, a situações ocorridas em diferentes lugares, passando por Miami, nos Estados Unidos, Rio de Janeiro, no Brasil, Tijuana, no México. Enfim, parece-me que há uma peculiaridade no seu trabalho com relação a esses estudos.

Marisa: Eu prossigo indagando nessa mesma direção. Tenho grande curiosidade em saber como se deu seu interesse pela cultura latino-americana. Isso porque penso que um dos aspectos que nos aproxima, que nos atrai em seu trabalho, é exatamente o fato de encontrarmos tantos pontos de contato entre os olhares que dirigimos à cultura brasileira e às questões da educação com o que você tem escrito acerca da cultura latino-americana. Eu gostaria de saber como se deu essa aproximação com os estudos latino-americanos e por que o interesse pelas questões da América Latina?

G. Y.: Vou responder às duas perguntas. Nesse livro foram estudados vários casos que apresentam uma proposta teórica relacionada com o novo olhar a respeito da cultura. A cultura tem ligação com essa ideia de recurso. Ela se vale cada vez mais que isso, tanto para tentar resolver problemas sociopolíticos, por exemplo, de diversidade, de intolerância, quanto para ser um instrumento que impulsiona o crescimento econômico e a geração de emprego. Então, através desses casos, mostrou-se que essa preocupação não se limitava somente ao setor público, porque, na verdade, em todo o mundo, mesmo em países onde o Estado é muito forte, como na Europa, cada vez mais a empresa privada e o terceiro setor, o das ONGs e das fundações, estão se excedendo. A sociedade civil e os movimentos sociais tentam compreender como se está organizando e gerenciando a cultura. Esses setores devem ter uma ideia de como todas as forças públicas, privadas e o terceiro setor interagem. Depois disso, apresentei vários casos latino-americanos. Meu interesse pela cultura latino-americana é muito antigo. Começou com as letras, muitos anos atrás, nem vou dizer há quanto tempo. Os estudos das letras e das artes me levaram para os Estudos Culturais porque, em vários países da América Latina, as letras faziam parte de uma preocupação social. Muitos escritores tinham uma inquietude social, aliás, imensamente maior que nos Estados Unidos. Por exemplo, não se podia falar em literatura sem se falar em um escritor como Ferreira Gullar, que sempre esteve interessado nas questões sociais. Assim como ele, muitos outros também estavam e estão interessados numa arte engajada. Além disso, eu participava de um grupo, nos Estados Unidos, que estava começando a elaborar os Estudos Culturais, no final dos anos setenta. Portanto, eu fui a ponte entre esse grupo e vários intelectuais latino-americanos que analisavam a sociedade com esse novo olhar dos Estudos Culturais. Havia algumas perspectivas semelhantes, embora muitos deles nem tivessem lido sobre o grupo de Birmingham. Estou falando do final dos anos setenta e do começo dos oitenta, quando servi de elo, de interface para esses grupos. Porém, só no começo dos anos noventa consegui ter as condições institucionais necessárias para poder organizar encontros. Assim, por exemplo, Garcia Canclini e meu grupo organizaram um encontro sobre os Estudos Culturais no México, aonde chegaram muitas pessoas vindas do Brasil, da Argentina, da Venezuela, e de outras partes dos Estados Unidos. Com isso, acabei escrevendo um ensaio sobre as diferentes tendências desse encontro. Na época, nos Estados Unidos, eu notava uma preocupação, um grande interesse pelas questões de raça através da cultura. Já no Brasil e na América Latina isso ficava sempre em segundo plano. Evidentemente, hoje não! Outros assuntos, por exemplo os estudos sobre a sexualidade, já estavam bem elaborados nos Estados Unidos pelos Estudos Culturais, mas na América Latina eles ainda não aconteciam. Outra coisa que, na mesma época, ficou evidente na América Latina, era que também não se falava em performatividade, uma categoria importante nos Estados Unidos. Assim, havia algumas diferenças, mas muitas preocupações semelhantes. Interessei-me com intensidade, pois eu achava que os intelectuais latino-americanos que estavam trabalhando as questões culturais inovavam, produzindo ideias interessantes, numa perspectiva mais clássica, adorniana, como a Beatriz Sarlo, na Argentina, e mais “atualmente”, a Heloisa Buarque de Holanda, no Rio de Janeiro, que parecia sempre estar na ponta, trabalhando com Nega Giza e outras questões. Havia várias pessoas importantes envolvidas com o debate pós-moderno na América Latina. Naquele momento, em particular, via-se como isso ocorria no Brasil, principalmente, através do encontro realizado no começo dos anos noventa.

M.: De fato, alguns autores, principalmente os latino-americanos, tais como Garcia Canclini, têm se referido a isto: que o Brasil seria um país pós-moderno por excelência, devido às características plurais de sua cultura, às diferentes culturas étnico-raciais e religiosas que convivem entre si e a uma certa abertura dos brasileiros em geral, e da própria academia mesmo, em acolher toda essa diversidade, transformando tudo isso num “mix”. Não estou querendo dizer que haja uma perfeita harmonia, mas sim, que parece existir alguma disposição para um acolhimento maior do que haveria em outras sociedades, quer seja na própria América Latina, quer seja em outros países estrangeiros. Você concorda com isso?

G. Y.: Eu acho que até pode ser, pois o que se elaborou nos anos sessenta, na Tropicália, é um exemplo de tendência cultural muito estudada, seja na vertente do Roberto Flats ou do Silviano Santiago. Embora tenham posicionamentos diferentes, os dois reconhecem que, naquele momento, se elaborou uma estrutura simbólica, como se ela fosse uma colagem, um colar de coisas diferentes, mas sem criar um amálgama dessas coisas. Elas mantinham suas diferenças e atribuíam essa novidade à Tropicália, tendência tanto de interesse pela cultura popular quanto pela cultura midiática. Quando se vê na música, por exemplo, novidades como o funk carioca, não com uma funkeira, mas com uma cantora de classe média e funkeira, a Fernanda Abreu, percebe-se como se manifesta a cultura de mixagem. Não estou falando de mistura no sentido mais tradicional, mas das tecnologias de mixagem, as que se produzem no estúdio. Por isso, eu acho que não é por acidente que, no Brasil, o funk e o rap são tão difundidos, é porque são músicas de mixagem. Muitos músicos dizem que a mixagem é uma maneira de ser brasileiro. Em certo sentido, outra palavra que se pode salientar é “sampler”. A Fernanda Abreu tem uma música que diz “Be Sample”, manifesto que afirma que ser brasileiro é ser “sampler”. Eu imagino que isso já existia antes da época digital. Nesse sentido, estou de acordo que, de uma devida maneira, se recebem muitas influências. Na verdade, certos brasileiros não têm ansiedade nem com essa diversidade nem com a pureza. No Brasil, é difícil ser muito puro.

M.: Outra característica que eu venho observando em minhas pesquisas, ultimamente, é um certo jeito brasileiro de viver, inclinado a não se preocupar mais ou muito com o futuro. Penso que compartilhamos uma cultura, com grandes diferenças e muitos matizes, mas voltada para o presente, ou seja, que procura extrair do presente tudo aquilo que ele pode oferecer de bom e de melhor. O que importa é ser feliz hoje, sem preocupar-se demasiadamente com o que vai acontecer amanhã. Isso porque, ao se pensar no amanhã, há muitas incertezas a respeito de ter dinheiro, comida e tantos outros itens importantes. Eu tenho percebido isso nas escolas frequentadas por crianças muito pobres. Elas chegam com roupas molhadas, porque choveu dentro do seu barraco, durante a noite, mas estão lá, na escola, vivendo com grande exaltação e alegria, sonhando que são cantoras de televisão ou top models, por exemplo. Bem, isso me parece algo que se aproxima desse etos pós-moderno da cultura brasileira, que antes comentamos.

G. Y.: Mas isso seria uma mudança, porque pelo menos as elites tinham uma vontade moderna. Até Brasília, como uma cidade com plano piloto, é um salto para o futuro e, como dizíamos muito, que nunca chegava.

M. L.: Em seu ponto de vista, a experiência do Viva Rio, relatada em seu livro, vale-se efetivamente, talvez, do desejo de a educação estar ocorrendo através de um engajamento aos movimentos musicais, como o funk, por exemplo. Você poderia falar um pouquinho mais sobre o projeto que comenta neste livro, ou seja, sobre essa forma de enxergar a educação, partindo da vinculação a esse tipo de movimento? E ainda, isso teria a ver com essa noção de performatividade que foi citada no seu texto? O quanto isso estaria se afastando da visão do intelectual transformador, que para nós foi extremamente presente, por exemplo, no trabalho de Paulo Freire e que encontra importante ressonância no trabalho de Daniel Mato? Aliás, percebemos certo estranhamento em Mato por não trabalharmos mais com o pensamento de Freire, consideração feita por ele mesmo em uma ocasião. Então, o senhor poderia explicar como essa visão performática se distancia da ideia de intelectual transformador que, para nós, do Brasil, e para outros países da América, foi tão fortemente apropriada, especialmente pelos educadores?

G. Y.: Neste momento, eu conversava a respeito disso com um amigo que está cursando um doutorado “sanduíche” em Nova Iorque e trabalhando com música. Ele é carioca e especializa-se em funk e rap. Estávamos falando que muitos grupos que estão atuando social, musical, cultural e, também, educativamente não precisam mais da intervenção do intelectual brasileiro. Eles mesmos são agentes. É o caso do José Júnior, coordenador do Afro Reggae, é o caso do Celso Ataíde, coordenador e diretor da CUFA – Central Única das Favelas –, de rapeiros como MV Bill, todos são intelectuais. Então, não é preciso que exista um Paulo Freire ou outra pessoa assim, mas isso também não quer dizer que eles não possam ter relações com intelectuais diferentes deles. Aqui o que está em jogo é a noção de que a agência mudou, não a ideia, mas a prática, a ideia de quem vai agenciar a transformação da sociedade. Será a iniciativa de um intelectual que irá animar a sociedade? Ou existem agentes sociais que estão achando maneiras de fazê-lo? A maneira que eu descrevi aí, e que irei abordar mais tarde, é que essas figuras, esses grupos acharam uma maneira de praticar uma agência disseminada em redes, pois eles não trabalham sozinhos. O José Júnior, por exemplo, se empenhou, tal como o Ruben Cezar Fernandes, no Viva Rio, com jornalistas, com alguns funcionários do governo, com fundações, ONGs etc. A iniciativa, e o que eles com ela conseguiram, aquilo que estão dizendo na atualidade, precisa ser avaliado como uma gestão complexa, pois eles descobriram de alguma maneira que não será uma pessoa que animará e mostrará como as outras pessoas poderão se emancipar, mas sim uma rede complexa que incidirá sobre todos, entre todos. Eu penso que existe uma grande relevância nesse agente, nesse ator, pois ele está difundindo cada vez mais a sua agência. Foi deste caso, e isso também é interessante, que eu falei no texto referido. Consciente ou inconscientemente, o educador sempre está mostrando e ensinando como se faz cultura, porém ele precisará ficar mais convicto do seu papel de gestor cultural. Não existe educação sem que esta esteja inserida na cultura, a educação já é uma maneira de gestionar (e de gerir) cultura, mas seria interessante mostrar aos alunos como se organiza o conceito de capacidade para agir. Agência, em outras palavras, é um anglicismo.

M.: Eu observo que a televisão e as organizações empresariais estão se transformando em agências culturais muito poderosas. No Brasil, muitas empresas hoje financiam projetos culturais e educativos, como Petrobras, Fiat, bancos etc., e se percebe isso dentro das escolas. De repente, as circunstâncias que estão sendo vivenciadas nelas já são administradas e agenciadas por empresas. É um fenômeno novo em que organizações comerciais promovem a educação, mas também se aproveitam desse espaço catalisador e multiplicador que é a escola. Eu não sou totalmente contra isso, pois acho que existem algumas finalidades edificantes nesses projetos. Eles trazem algo que falta muito na educação formal pública brasileira, que são recursos financeiros. Contudo, o que me parece é que a educação vai escapando da escola, que era sua principal agência, tornando-se uma prática disseminada, assumida por muitos agentes com discutíveis interesses. Concordo plenamente que o professor precisa se dar conta de seu papel, para trabalhar com isso e para que as crianças consigam entender esses processos.

G. Y.: A cultura incorporada na escola não poderá ser feita somente com os instrumentos do passado, porque ela já está funcionando de outra maneira, isto é, hoje ela está relacionada com a cultura empresarial, com a cultura do serviço social, com a cultura econômica. O professor tem de saber disso para se organizar melhor e para pensar no modo como os alunos irão compreender a noção de cultura e como irão atuar nela e sobre ela.

M.: Do meu ponto de vista, o processo mais assustador e diante do qual o professor está menos preparado é o da entrada da mídia na vida escolar. De fato, é a colonização da vida das crianças e dos jovens pela mídia que repercute lá na escola de forma impressionante, mudando seu ritmo, seu jeito de ser, suas práticas, seu “formato”. A ordem escolar está profundamente subvertida pelos fenômenos midiáticos, e as mídias atuais são extremamente competentes. Particularmente, no Brasil, a televisão, mas não somente ela, é extremamente competente em sua convocação.

G. Y.: Mas, onde mais os jovens passam o tempo? Na frente da televisão ou dos videogames. Para mim, esse parece um problema com que a escola não sabe lidar. O imaginário do jovem passa não só o imaginário, mas também as formas de interação com os outros, porque muitos videogames são interativos através da Internet, a ditar novas formas de relacionamento, principalmente com pessoas que eles não conhecem. Pode-se, por meio de um jogo de videogame, interagir com uma pessoa que está na Rússia. Portanto, o imaginário é uma forma de ação mútua entre as pessoas. Na realidade, o que falta é uma visão crítica da mídia, dos videogames, de tudo isso que está aí, porque eu entendo que os alunos precisam dessas e de outras formas culturais. Da mesma maneira, nós, que tivemos uma alfabetização voltada à cultura letrada, pelo menos nas boas escolas, precisamos passar por isso para depois fazermos uma crítica às letras e às mídias.

M. L.: Essa era uma proposta que talvez estivesse contida nos estudos de Henry Giroux. Não sei se ele teve grande repercussão nos Estados Unidos, mas no Brasil os trabalhos de Giroux trouxeram uma contribuição importante em direção a uma leitura crítica das mídias. Aliás, parece-me que essa é uma ideia que tem circulado bastante entre nós, especialmente a partir da contribuição dos Estudos Culturais.

M.: Nos Estudos Culturais em educação praicados no Brasil, Henry Giroux, Shirley Steinberg, Joe Kincheloe e Douglas Kellner são os principais estudiosos norte-americanos inspiradores de pesquisas que tratam de mídia e cultura e se preocupam com questões educativas nelas implicadas. Entretanto, parece que na América Latina, os pesquisadores em Estudos Culturais começaram a tratar das relações entre cultura e mídia há um bom tempo. E aqui cabe uma ressalva. Quando falo em América Latina não estou me referindo ao Brasil, e justifico. Em julho de 2006, ao participar de um grande congresso internacional de Estudos Culturais – o Crossroads in Cultural Studies – um dos palestrantes que abordou os Estudos Culturais latino-americanos, após citar inúmeros nomes de pesquisadores de vários países da América do Sul e Central, em relação ao Brasil somente mencionou Renato Ortiz. Não se estendeu para além disso, parecendo-me estar implícita aí a ideia de que o Brasil é cada vez menos considerado como parte do que se denomina América Latina, sendo esta considerada como aquela dos países de língua espanhola. O Brasil, talvez por ser falante de língua portuguesa, sugere algo que o distinguiria das demais comunidades latino-americanas. Contudo, temos no Brasil já uma produção significativa filiada aos Estudos Culturais, sendo grande parte dela vinculada às aproximações entre os Estudos Culturais e a Educação. Temos utilizado o caractere @ para mostrar que essa relação é complexa e multifacetada – Estudos Culturais @ Educação. Por sua vez, os Estudos Culturais latino-americanos dedicam-se a outros tantos focos, sendo pouco destacada a produção voltada à educação. Penso que devido a isso ainda sejam poucos nossos interlocutores latino-americanos. Faço esse comentário porque gostaria de ouvi-lo acerca de sua percepção sobre o que estou mencionando.

G. Y.: Não conheço muito bem quem são os especialistas nos Estudos Culturais em Educação nos países hispano-americanos. [...] Também quero aproveitar para dizer uma coisa a respeito dos Estados Unidos. Lá existem pessoas que muito refletem sobre isso, porém, nos programas das escolas, em geral, elas não incidem, ficando tal reflexão limitada aos cursos universitários, às bibliografias, às livrarias. Nós não temos nem o ensino da arte, que acontece somente em escolas privadas e nos bons sistemas educativos locais. Na verdade, todos são locais nos Estados Unidos, só que para alguns o ensino das artes e da cultura não apresenta diferença entre estudar dança moderna, ópera e teatro. Logo, compreende-se que a noção de cultura que se tem hoje em dia está muito longe da que se estuda nas escolas. No entanto, eu creio que isso é muito importante, é tão importante quanto estudar o que lá se chama Estudos Cívicos, ou seja, a matéria que mostra como se organiza a sociedade, como ser um bom cidadão etc. Tudo é importante, principalmente, ter-se o estudo da cultura, sobretudo porque passamos e ainda estamos passando por guerras culturais nos Estados Unidos. Atualmente, a grande polaridade ocorre entre o fundamentalismo religioso e as pessoas mais liberais, citando, como exemplo, os homossexuais com seu matrimônio legalizado em vários estados. Nas escolas ensinam obrigatoriamente o criacionismo, e o criacionismo diz que a teoria da evolução é uma anticiência, mas que está sendo ensinada como ciência. Então, não há um estudo, na escola básica ou secundária, desse fenômeno chamado de cultura, apenas nas universidades. Isso empobrece muito a sociedade.

M.: Essa falta de repercussão nas escolas e nos cursos deve-se a políticas governamentais que, de certa forma, impedem isso?

G. Y.: Bem, certamente, nesses casos muito conservadores onde se ensina o criacionismo, a repercussão não existe porque não se questiona o que é “natural” (e o “natural” seria o “normal”). Logo, questionaríamos [os praticantes de Estudos Culturais] o que é ser “normal”. Mas, em geral, por outro lado, há um problema: isto é, não se fariam muitos questionamentos sobre o que é o “normal”. Entendo que existe a crença de que na escola básica e secundária não se deve questionar o “normal”. Essa questão é um grande problema dos estudantes: eles sempre estão se confrontando com o peso do normatismo. Sentem-se muito alienados, porque não são “normais” e não compreendem o que isso significa. Então, os Estudos Culturais seriam muito úteis, pois falam a respeito dessas questões.

M.: Por que, então, os Estudos Culturais não são mais acolhidos na formação dos professores?

M. L.: Eu acho que essa desvinculação que se faz entre o meio universitário e a escola fundamental e média também acontece entre nós, não é? As discussões que se apresentam na universidade pouco se estendem para a rede escolar, porque tais situações mexem muito com as estruturas de poder que temos aí e não interessa tocar nisso. Há dois dias, eu li no jornal sobre um questionamento levado por uma criança da escola para sua casa. Esse surgiu quando ela estava estudando em seu livro escolar sobre o que era ser latifundiário. Bem, o avô dela era um latifundiário, e a pergunta da criança reproduzida no jornal era exatamente esta: “Ô mãe, o meu avô é um latifundiário?” Então, o que se discutia na reportagem era a impropriedade do que estava afirmado no livro didático, ou seja, criticava-se a focalização desta questão porque ela incidia sobre temas controvertidos, sensíveis, que melhor seria permanecerem camuflados.

M.: Enfim, nós poderíamos, talvez, retomar um pouco a conveniência da cultura e o assunto que nos tem ocupado atualmente. Ele tem tudo a ver com o eixo econômico, com o mercado, com o valor de troca das coisas e seu reflexo na sociedade contemporânea.

G. Y.: Bem, a ideia do livro [A conveniência da cultura] é exatamente esta, a importância do consumo. Para mim, é preciso problematizar a posição que muitas pessoas ainda têm, a partir do trabalho de Theodor Adorno, de se colocarem contra as indústrias culturais. Isso não se justifica, exceto no sentido de que produziu mudanças em nossa natureza que, nos tempos atuais, é midiática de consumo, de cultura, etc. Portanto, teremos de pensar em como criar estratégias para fazer essa mudança de maneira democrática, crítica etc. Essa foi uma parte do que eu tratei no livro. De outra parte, temos outro ator, tão importante quanto o mercado, que é o setor das fundações, das ONGs e da cooperação internacional. Não sei se vocês estão cientes da extrema incidência da cooperação internacional francesa, espanhola, sueca, alemã, que existe na América Latina e, em geral, também no Brasil. O Afro Reggae foi financiado pelo comércio através da Fundação Ford. A Fundação Príncipe Klaus (da Holanda) financia isso e também outras ações culturais. A Organização dos Estados Ibero-Americanos (da Espanha) igualmente patrocina muitas atividades no Brasil. Portanto, esse é o outro setor, aquele que fala muito em direito e cidadania. A cultura que pensa em relação ao direito e à cidadania existe, em grande parte, pela ação desse setor. Dessa forma, temos dois usos: um que tem a ver com mercado, e outro que tem a ver com essas questões, que dizem respeito a fornecer aporte financeiro e mobilizar a cultura para resolver os problemas sociais. Exemplificando: se, em certa situação, há racismo ou intolerância, desenvolvem-se programas culturais para tentar resolver essa questão, isto é, para acabar com o desrespeito e a intolerância. Esses são os dois setores. Por isso, eu falo sempre sobre essa ideia de cultura virar recurso, ou melhor, que cultura é um recurso. Em nossa época, depois que se pensa assim, é que se começa a ver que a pessoa que “mexe” com cultura é um gestor. Assim como na natureza precisamos de gestores para que as populações não acabem com os recursos naturais, em relação à cultura também precisamos de gestores para administrá-la bem, favorecendo uma educação crítica. É interessante que surge agora uma figura que não existia há vinte anos, que é a do gestor cultural. Isso acontece, em parte, pelo mercado. Surge, nesse momento, a Petrobras como financiadora da cultura, aparecem também outras fontes, passa a vigorar a Lei de Incentivo à Cultura (LIC) etc. Tudo isso para se conseguir dinheiro. Também se precisa de gestores, mas parece haver, além disso, outra questão. O José Júnior, coordenador do Afro Reggae, é um gestor cultural muito inteligente. Ele diz que, para promover a sustentabilidade de seu projeto, ele precisa treinar seus gestores, senão o projeto acabará. A liderança não poderá ficar só com ele, tem-se que produzir mais gestores. A gestão é um fenômeno que antes era só do setor público, do governo, e, agora, dissemina-se nas sociedades latino-americanas em relação ao mercado e ao terceiro setor, ou seja, em relação à cultura. Isso é uma grande novidade, e tenho estudado esse assunto em vários casos.

M: Tal questão corresponderia a esse ímpeto de governamentalidade de que fala Foucault, porque, de certa forma, quando esse gestor cultural está preocupado em formar mais gestores, é porque, com certeza, não quer que se perca a direção que está sendo impressa a determinados processos e movimentos culturais.

M. L.: Nesse sentido, eu pergunto: a interlocução que alguns autores, como o senhor e o próprio Garcia Canclini, têm feito com as tendências de pensamento pós-estruturalistas e com os filósofos da pós-modernidade, de alguma maneira, parece que ampliam as possibilidades de discussão de como vinha sendo conduzida a cultura nos Estudos Culturais. No caso do Brasil, por exemplo, isso já causou uma cisão. Há uma autora5 que chega a pensar na existência de Estudos Culturais “mais adequados” e “menos adequados”. Para ela, “os mais adequados” seriam exatamente aqueles que se aproximam da vertente de Birmingham e dos trabalhos de Raymond Williams, por exemplo. Os demais seriam os “menos adequados”, menos puros, vamos dizer assim; ou seja, para ela, o que se afasta da vertente de Birmingham não é “essencialmente” Estudos Culturais. Novamente temos aquele entendimento de acharmos uma definição, um enquadramento dos Estudos Culturais, sendo essa, no entanto, uma perspectiva da qual seus praticantes têm que procurar fugir constantemente. Então, como fica a ideia da interlocução com as empresas?

G. Y.: Claro, fui aprendendo muito estudando vários casos e descobri que o gestor é quem cria as relações, as retitulações para poder levar adiante um projeto, senão este morrerá. Não são modelos de ação, mas um modo de reflexão que vai além dos Estudos Culturais “puros”, de Birmingham. Agora, é necessário agir em vários campos, muitas vezes, e trabalhar em outros com parcerias, etc. É mais complexo, mais flexível, e não se vê a ação somente através da reflexão teórica, mas isso envolve uma relação bem dinâmica entre reflexão e ação. Continuam sendo interessantes, por esse motivo, os trabalhos de Bourdieu e Stuart Hall. Eles têm uma perspectiva gramsciana. Stuart Hall elaborou também seus estudos a partir da perspectiva foucaultiana da governamentalidade. Essa visão foi a que mais se aproximou, em certo momento, desse processo que temos hoje, ou seja, da gerência da sociedade. Eu lembro, não sei se mencionei neste livro, acho que não, mas o primeiro que propôs o tema da governamentalidade nas políticas culturais, no contexto anglo-americano dos Estudos Culturais, foi Tony Bennet, que escreveu “O nascimento do museu”. Essa obra alude à de Foucault intitulada O Nascimento da clínica.

M.: Acho que essa oportunidade de podermos conversar sobre a importância dos Estudos Culturais com alguém que participou das primeiras discussões americanas sobre o campo foi ímpar. Esta conversa terá continuidade, certamente, porque é muito bom tomar contato com esse olhar de fora, evitando que fiquemos circunscritos às questões mais locais e internas. Temos também nossos “grilos” com a hegemonia anglo-saxônica dos Estudos Culturais, assim como temos vontade de que esse olhar latino-americano e brasileiro, que se distingue dos demais Estudos Culturais, possa ter alguma visibilidade e contribuir para esse campo em desenvolvimento. Sabemos que os Cultural Studies constituem um campo controvertido, em permanente constituição e recomposição, afinado com políticas de abertura e de Crossroads. Sabemos que mesmo entre muitas tendências e disciplinas que possam apenas se cruzar contingencialmente, podemos compartilhar focos de convergência e fazer política. Muito obrigada, Professor.

M. L.: Finalizo lembrando comentário feito pelo Professor Denilson Lopes, que destaca ser o Professor Yúdice um novo tipo de intelectual público capaz de realizar reflexões envolvidas, engajadas, amorosas, que implicam uma abertura metodológica, que não teme cair em um ecletismo teórico.

G. Y.: Agradeço muito.

*Entrevista concedida as professoras Marisa Vorraber Costa &; Maria Lúcia Castagna Wortmann, publicada originalmente na Revista Educação (Porto Alegre), v. 38, n. 1, p. 14-20, jan.-abr. 2015.

Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Chimamanda Adichie e o Perigo da História Única


No cotidiano, nos deparamos com diversos fatos. Fatos esses que conferem um consenso sobre uma "realidade", uma verdade elaborada acima da sucessão de acontecimentos que nos rodeiam. No entanto, tudo que se sabe sobre qualquer coisa, possivelmente, não é tão factual para outros. Os fatos são tudo aquilo que se diz sobre eles; são tudo aquilo que compõe as representações para si. Podemos ter conhecimento sobre qualquer coisa, mas nunca teremos sua experiência por completo. Daí, o que se sabe sobre tudo é o que se fala sobre tal, o que o nosso imaginário nos apresenta em seu horizonte de possibilidades.

Nesse passo, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie nos alerta sobre o perigo da história única. Sobre a história que se desprende da complexidade das realidades. Claro que nunca se sabe tudo sobre qualquer coisa, mas não quer dizer que deveríamos nos ater a uma única possibilidade. Parafraseando a autora, "o branco é um eufemismo para o poder" e são eles, os que se apropriaram do capital social e simbólico, que detêm desta potencialidade de fixar significados e reproduzi-los até que já não haja dúvidas sobre a história.

De certo, o que Adichie nos alerta é basicamente sobre a dificuldade de ouvir o outro, a dificuldade de quebrar o silêncio e o vazio descritivo do discurso que se materializa sobre os corpos.

Assista ao TedTalk completo abaixo.


Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Francine Saillant e o trabalho do reconhecimento


Francine Saillant é uma antropóloga e intelectual canadense e diretora do Centro Interuniversitário de Letras, Artes e Tradições (CELAT), sendo professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Laval desde 1996. Em meados da década de 1980, Saillant concentra-se nos estudos de antropologia da medicina e desenvolve trabalhos de etno-história sobre aspectos culturais afetados pelo câncer, Cancer et Culture, e questões sobre gravidez, Qui consulte les sages-femmes au Québec ? 

No início dos anos 2000, Francine Saillant volta suas atenções para questões de cidadania, direitos por invalidez e questões raciais no Brasil. Entrando nessa linha, a pesquisadora passa a trabalhar com estudos de reparação e reconhecimento de minorias sociais, nos quadros brasileiros de emergência das lutas sociais. 

Em seu capítulo "Reconhecimento e reparações: o exemplo do movimento negro no Brasil", publicado no livro "História oral e comunidade: reparações e culturas negras", organizado por Hebe Mattos, do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI), Saillant elabora um panorama geral das teorias do reconhecimento e reparação, que tangenciam os estudos da filosofia, sociologia, ciências políticas e a antropologia. 

Com isso, ela ressalta os aspectos identitários e as relações sociais dos grupos raciais minorizados e elabora sobre as questões que atravessam o "lugar" das minorias sociais e suas diversas formas de inclusão social, dadas através de políticas públicas estatais e, principalmente, as ações comunitárias elaboradas em prol desses grupos. 

Ao trabalhar o exemplo do movimento negro brasileiro, a autora comenta sobre a história da escravidão e os resquícios desta história no presente momento da sociedade "pós-escravista". Também identifica as leis de incentivo à cultura e história da África e as politicas de reparação e  valorização da cultura negra como objeto central da formação identitária da cultura brasileira. Tudo isso levando em conta as propostas e todas as lutas do movimento negro, propondo a ideia de reparação de si, a reparação do dano histórico de negro dado nas instâncias de atividade cultural feitas de "nós para nós".

Clique aqui para mais informações sobre o livro que se encontra na página do Projeto Passados Presentes

Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

segunda-feira, 24 de abril de 2017

"BICHA: Ressignificar para (re)existir": um TEDx Talk com Marlon Parente



Na edição TEDx Talk UFPE, Marlon Parente fala de seu direito de ressignificar. A palavra "bicha", para homens homossexuais, sempre foi algo doloroso e pejorativo de se ouvir. Esta, dentre outras palavras, deixa marcas muitas vezes irreversíveis na vida das pessoas. Palavras têm o poder do discurso. O poder de subjugar, degradar, humilhar e diminuir. Mas as palavras também têm o poder de enaltecer, valorizar, vangloriar e expor bons significados. A palavra é um elemento vivo de nossa comunicação que deve ser apropriado e ressignificado sempre que possível. 

Confira, abaixo, as belíssimas palavras de Marlon sobre o assunto:


Veja também o documentário "Bichas":




Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI

domingo, 23 de abril de 2017

Entrevista com Ken Loach no Programa Milênio




Em breve, o CINECLUBE DO GRECOS exibirá alguns filmes de Ken Loach, com debates sobre a sociedade contemporânea. Para iniciar a preparação para este evento, postamos aqui uma entrevista com o cineasta britânico de 80 anos que segue, em seus filmes, abordando temas politicamente engajados.



Postagem: Coordenação GRECOS/LAMI

quarta-feira, 12 de abril de 2017

"A dificil tarefa de definir quem é negro no Brasil": Uma entrevista com Kabengele Munanga


Kabengele Munanga é um antropólogo congolês, naturalizado brasileiro. Sua especialidade nos estudos da antropologia estão centrados nas questões afro-brasileiras. Mais precisamente, assuntos permeados pelo racismo enraizado na sociedade brasileira.

Munanga é graduado em Antropologia pela Universidade Oficial do Congo. Em 1969, ingressou no programa de mestrado na Universidade de Louvain, mas por conta de problemas políticos não conseguiu finalizar seus estudos na Bélgica. Entretanto, conseguiu terminar seus estudos em um programa de doutorado da USP.

Após se estabelecer no Brasil, em 1980, assume a cadeira de Antropologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e volta à São Paulo e assume como professor de antropologia efetivo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP). Foi vice-diretor do Museu de Arte Contemporânea e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia e do Centro de Estudos Africanos da USP. Atualmente, desde de 2014, se encontra como professor sênior na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, no programa de Pós-graduação em Ciências Sociais.

Kabengele Munanga é um dos teóricos primordiais para a reflexão das teorias sociais que levam em consideração os racismos aplicados na sociedade brasileira. Em um de seus livros, "Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra", o antropólogo discute a problemática antagônica da mestiçagem no Brasil que atravessa a constituição da identidade nacional brasileira e a concepção da identidade negra dentro do território nacional.

Na entrevista abaixo, concedida em 2004, ao editor da revista Estudos Avançados, o professor Alfredo Bosi e o editor assistente, jornalista Dario Luis Borelli, Kabengele Munanga discute os atravessamentos da formação identitária negra no Brasil e as dificuldades de definir "certeiramente" quem é negro no Brasil.

"ESTUDOS AVANÇADOS: Quem é negro no Brasil? É um problema de identidade ou de denominação?

Kabengele Munanga: Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer pessoa que tenha essa aparência. É uma qualificação política que se aproxima da definição norte-americana. Nos EUA não existe pardo, mulato ou mestiço e qualquer descendente de negro pode simplesmente se apresentar como negro. Portanto, por mais que tenha uma aparência de branco, a pessoa pode se declarar como negro.

No contexto atual, no Brasil a questão é problemática, porque, quando se colocam em foco políticas de ações afirmativas – cotas, por exemplo –, o conceito de negro torna-se complexo. Entra em jogo também o conceito de afro-descendente, forjado pelos próprios negros na busca da unidade com os mestiços.

Com os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostrando que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode se dizer um afro-descendente. Trata-se de uma decisão política.

Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar. O único jeito é submeter essa pessoa a um teste de DNA. Porém, isso não é aconselhável, porque, seguindo por tal caminho, todos os brasileiros deverão fazer testes. E o mesmo sucederia com afro-descendentes que têm marcadores genéticos europeus, porque muitos de nossos mestiços são euro-descendentes.

O problema das cotas

E. A.: Em face da concessão de cotas para negros, ou para outros segmentos da população que não tiveram a mesma condição de cursar escolas da classe média ou alta, qual a sua posição?

K. M.: Por ocasião dos trezentos anos da morte de Zumbidos Palmares, em 1995, começamos a discutir essa questão na USP, numa comissão criada pela reitoria.

Os movimentos negros, principalmente o Núcleo da Consciência Negra, pleitearam o estabelecimento de cotas em nossa universidade. Contudo, afirmei que não poderíamos discutir o sistema de cotas sem antes fazer uma pesquisa preliminar em países que já têm experiência de cotas, como os EUA, o Canadá, a Austrália ou a Índia.

Naquela ocasião, apresentei essa proposta, mas ela não foi levada adiante. No entanto, na base de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um órgão do governo federal, conclui-se que realmente há uma grande defasagem na escolaridade dos negros nas universidades brasileiras.

Infelizmente, porém, começamos a enfrentar a questão pelas cotas, a partir da decisão do governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, que provocou uma confusão muito grande, quando estabeleceu cotas nas universidades estaduais. No entanto, mesmo num país com tantas desigualdades, as políticas universalistas não resolvem o problema do negro. Para isso precisamos formular políticas específicas contra as desigualdades, mas o caminho não deve ser necessariamente por meio de cotas.

Essa discussão, todavia, é importante, porque antes nem se tocava no assunto. Escutei outro dia algo muito positivo quando alguém dizia que deveria haver cotas para pobres. Ora, antes ninguém apresentou esse ponto de vista. Oque mais me surpreende é que jamais o movimento negro se disse contrário a cotas para brancos pobres.

A questão ainda está mal discutida, sendo formulada num tom passional, tanto pelos negros como pelos intelectuais. A questão não é a existência ou não das cotas. O fundamental é aumentar o contingente negro no ensino superior de boa qualidade, descobrindo os caminhos para que isso aconteça.

Para mim, as cotas são uma medida transitória, para acelerar o processo. No entanto, julgo que não somente os negros, mas também os brancos pobres têm o direito às cotas. Se as cotas forem adotadas, devem ser cruzados critérios econômicos com critérios étnicos. Porque meus filhos não precisam de cotas, assim como outros negros da classe média.

E. A.: O sr. iniciou suas declarações dando uma opinião contra as cotas, mas agora aponta para o problema da urgência. As cotas aparecem como uma medida de urgência?

K. M.: Sim. Ao menos que o país diga que tem hoje uma outra proposta emergencial melhor, que não abra mão de uma política universalista com vistas ao aperfeiçoamento do nível do ensino básico. É bom lembrar que a escola pública já apresentou melhor qualidade, mas o negro e o pobre não entravam nela.

Melhorar a escola pública

E. A.: O sr. acha que a médio prazo a alternativa seria uma transformação mais profunda do ensino básico e secundário? Um número considerável de alunos negros faz o segundo grau em escolas públicas. Não falo deles como negros, mas sim como pobres. Será que as cotas não resolvem o problema porque o enfrentam no fim da linha, em vez de atacá-lo no começo?

K. M.: Sim. Porém, vivo aqui há 28 anos e desde que cheguei escuto esse discurso. Mas nunca vi luta política e social alguma para a melhoria da escola pública. Só há o discurso. Mas o que fazer com a vítima? Esperar que isso aconteça por milagre, ou pressionar a sociedade através de uma proposta: como pelo menos cuidar da escola pública? A dúvida que tenho é a seguinte: num país onde a privatização do ensino é cada vez maior e no qual o lobby das escolas particulares é tão forte, só posso antever uma melhoria a longo prazo. Lembro-me de que o primeiro processo contra as propostas de cotas no Rio de Janeiro veio do sindicato das escolas privadas.

Devido a essa tendência para a privatização das escolas públicas, não acredito numa rápida melhoria delas. A desigualdade social que existe há quatrocentos anos não pode ser resolvida por meio de políticas universalistas. É preciso, portanto, traçar políticas específicas para se encontrar uma solução.

A discriminação racial

A palavra “social” incomoda-me muito. Quando dizem que a questão do negro é uma questão social, o que quer dizer “social”? As relações de gênero são uma questão social; a discriminação contra o portador de deficiência é uma questão social; a discriminação contra o negro é uma questão social. Ora, o social tem nome e endereço. Não podemos diluir, retirar o nome, a religião e o sexo e aplicar uma solução química. O problema social tem de ser atacado especificamente.

A discriminação racial precisa ser urgentemente enfrentada. Nós, negros, também temos problemas de alienação de nossa personalidade. Muitas vezes trabalhamos o problema na ponta do iceberg que é visível. Mas a base desse iceberg deixa de ser trabalhada.

Estou aqui, como disse, há 28 anos. Vou a restaurantes utilizados pela classe média e a centros de alimentação nos shoppings. Encontro famílias brancas comendo (homem, mulher e filhos), mas dificilmente estão ali famílias negras. Há uma classe média negra, mas que se autodiscrimina e que é também discriminada. Desafio vocês a me dizerem que encontraram quatro famílias negras em cinco restaurantes de classe média em São Paulo. Vejamos o meu caso: em meu segundo casamento (que é interracial) percebia aquelas “olhadas” – mulher branca, filhos negros do primeiro casamento e filhos mestiços do segundo. Ninguém me expulsava desses lugares, mas eu via as “olhadas”...

(…)

Um antropólogo em dois mundos

E. A.: O sr. poderia descrever um pouco sua trajetória até chegar no Brasil?

K. M.:  Nasci no antigo Zaire, que hoje se chama República Democrática do Congo, numa aldeia no centro do país. Estudei num colégio interno de jesuítas e fiz graduação em Antropologia. Aliás, fui o primeiro antropólogo formado naquela universidade e o único aluno que teve aulas com professores franceses, belgas e americanos convidados, pois não havia ainda professores africanos na Universidade quando eu entrei. Lá, nós acabávamos a graduação com um tipo de dissertação que se chamava Mémoire. O sistema belga dava o direito de se entrar diretamente no doutorado. Em razão disso, comecei o doutorado em Louvain, na Bélgica, em 1969. Dois anos depois, voltei para pesquisas de campo. Mas houve complicações políticas. Cortaram a bolsa e não pude fazer mais nada.

Por coincidência, encontrei no Congo, em 1973, o professor Fernando Mourão, que ali estava realizando palestras sobre as contribuições africanas para a cultura brasileira. Conversamos e ele me disse que a USP possuía um projeto de cooperação com as universidades africanas e que nela eu poderia completar o doutorado. Cheguei aqui em 1975 e me inscrevi no doutorado, sob a orientação do professor João Batista Borges Pereira. Como eu estava bastante adiantado, em dois anos defendi minha tese. Trabalhei sobre o processo de mudanças socioeconômicas numa comunidade no sul do Congo. Voltei correndo à militância para colocar meus conhecimentos à disposição de meu país. Mas quando cheguei lá, tive de fugir para o Brasil.

Quando houve a independência do meu país, o antigo Zaire (em 30 de junho de 1960), eu estava com dezoito anos. A Faculdade foi criada pela Bélgica, seis anos antes da independência, em consequência de pressões internacionais. Fui alfabetizado na minha língua materna, mas no fim do primeiro grau começou o ensino em francês. O resto do curso foi em francês. Isso porque, com mais de duzentas línguas, não era possível escolher uma para ser a língua nacional. Todos os alfabetizados falam francês.

E. A.: Alguma dessas línguas africanas é hegemônica?

K. M.: O suahili que é uma língua falada em muitos países africanos, em parte do Zaire, Tanzânia, Burundi, Quênia e Uganda.

E. A.:  Suahili tem alguma coisa a ver com o árabe?

K. M.: Cerca de vinte por cento do vocabulário, porque desde a Antigüidade os árabes tiveram muita influência no continente, a partir do oceano Índico, além de terem sido responsáveis pelo tráfico oriental e transaariano (entre os anos de 600-1600). Mas a estrutura da língua é totalmente bantu (africana)".


*Para acessar a entrevista completa, clique aqui.


Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI