Blog do Grupo de Estudos sobre Comunicação, Cultura e Sociedade (GRECOS), coordenado pela professora Ana Lucia Enne (UFF), relacionado às disciplinas lecionadas por ela no curso de Estudos de Mídia e na Pós-graduação em Cultura e Territorialidades (PPCULT) da UFF, conjugando reflexões sobre sociologia, estudos culturais, história, antropologia, cultura, mídia, consumo, memória, juventude, movimentos sociais e identidade, dentre outros temas, e ao Laboratório de Mídia e Identidade (LAMI).
Para a avaliação final da disciplina Identidades Culturais na Contemporaneidade, as alunas Indaiá Mattos, Luciana Toledo e Sarah Roque produziram uma análise série I May Destroy You, disponível na HBO Max.
Lançada em 2020 e com apenas 1 temporada, a série é escrita, dirigida e estrelada por Michaela Coel. Na série, somos apresentados a Arabella, uma jovem mulher londrina de ascendência ganesa que ganha visibilidade como escritora após viralização de seus textos no Twitter. Em uma noite com amigos, Arabella é dopada e estuprada e é a partir deste conflito que a trama se desenvolverá. A série é uma ficcionalização de um abuso sofrido pela atriz e diretora Michaela Coel, que aconteceu enquanto as gravações de sua primeira série, Chewing Gum, aconteciam. Ainda que a narrativa tenha como foco questões como assédio, consentimento, feminicídio e o movimento Me Too, a série também traz consigo reflexões importantes sobre memória, identidade e representação.
Ingá Maria, aluna da disciplina Sociologia e Comunicação de 2017.1, propõe uma reflexão sobre o filme A Vizinhança do Tigre, longa-metragem brasileiro, dirigido por Affonso Uchoa, que trata da trajetória de Juninho, Eldo, Adilson, Menor e Neguinho, jovens moradores da periferia de Contagem/MG, na "travessia entre a infância e a vida adulta, pelas ruas, terrenos, casas e quintais do Bairro Nacional, Região Metropolitana de Belo Horizonte". Para compor esta reflexão, ela recorre à contribuição de Pierre Bourdieu sobre a relações de divisão do campo de poder e sua teoria social do Construtivismo estruturalista/Estruturalismo construtivista.
"Se aplicarmos essa chave de leitura para A Vizinhança do Tigre, rapidamente percebemos a expressão inegável de uma estrutura social que incide sobre os corpos e as práticas dos sujeitos filmados. Junim precisa pagar a dívida que contraiu com agiotas dentro da prisão. O campo do poder, comparável para Bourdieu com “um espaço geográfico no interior do qual se recortam posições” também se faz presente e ainda na primeira sequência do filme, um dos garotos recebe uma carta de intimação da justiça. Até mesmo os poderes sociais fundamentais, que o sociólogo denomina de capitais, encontram sua manifestação econômica nas casas sem reboco ou sua expressão cultural através da associação fácil entre meninos da periferia e o gosto pelo rap".
Arthur Conrado, aluno da disciplina Comunicação e Cultura Popular de 2017.1, produziu uma pequena revisão teórica sobre o lugar da dança enquanto uma das Sete Artes. Segundo ele, a dança entendida enquanto arte só pode acontecer dentro de um espaço delimitado, o espaço reservado a preservação do acesso à arte: o teatro. Com isso, Arthur elabora considerações sobre a perspectiva negativa de um entendimento erudito da cultura que recai sobre o funk. Para isso, o aluno utiliza o trabalho de Mikhail Bakhtin sobre a carnavalização e Michel Foucault para discutir as estratégias de desmonte do discurso.
"No consciente coletivo, o ato de dançar acaba sendo relegado a locais e contextos a ele destinados, assim como determinadas formas de dança (relacionadas aos movimentos ou passos de dança, que, por sua vez, são pertinentes ao ritmo musical) são malvistas estigmatizadas. O que nos leva à fala de Michel Foucault em sua aula inaugural no Collège de France, transcrita e publicada como A ordem do discurso, sobre o controle da produção do discurso: em toda sociedade, há um certo número de procedimentos que não só controlam, como organizam e selecionam os discursos produzidos, sendo o procedimento externo mais evidente a interdição (ou seja, a proibição). Esta, por sua vez, manifesta-se de três formas: tabu do objeto, ritual da circunstância e direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala (FOUCAULT, 1996, p. 9). Isso quer dizer que “não se tem o direito de dizer tudo [tabu do objeto], que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância [ritual da circunstância], que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa [direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala]” (FOUCAULT, 1996, p. 9).
No tangente à questão da dança, pautados na fala de Foucault, podemos estruturar as suas interdições da seguinte maneira: primeiro, a dança é uma expressão corporal, logo, sua manifestação é respeitada e até mesmo admirada, desde que não se dê por meio de movimentos tidos como vulgares (ou seja, dançar funk seria uma espécie de afronta a essa interdição do tabu do objeto); segundo, o ato de dançar é respeitado, desde que restrito a locais e contextos que o justifiquem (o que quer dizer que, por exemplo, dançar em um supermercado, em um banco, em um ponto de ônibus, corresponde a uma atitude que extrapola os limites da interdição do ritual da circunstância); terceiro, é até possível praticar a dança através de movimentos tipicamente malvistos e num local/contexto alheio aos reservados para tal prática, desde que o ator (neste caso, sujeito atuante) tenha um propósito embasado para isso e, acima de tudo, reconhecimento público por aquilo que faz (por exemplo, um performer conhecido desenvolver uma performance dançando funk dentro de um museu, assim como uma cantora de funk promover um show no meio de uma praça ou mesmo gravar um clipe em via pública, são compreendidos e aceitos, mas, por outro lado, se um indivíduo como outro qualquer decidir dançar funk em um museu, por exemplo, além de ser tachado negativamente, ainda corre o risco de ser retirado do local, tendo em vista que não possui respaldo para tal, ou seja, o sujeito do discurso preciso de direito privilegiado ou exclusivo para que seu discurso seja válido)".
A campanha Skolors, da marca de cerveja Skol, elabora mais uma tentativa de se distanciar da imagem hegemônica do que se entende como um comercial de cerveja. Nessas peças publicitárias, a marca compra outra briga com um aspecto enraizado na estrutura social brasileira: o racismo. A proposta é celebrar a diversidade da população brasileira com latas de cinco cores diferentes com alguns tons de pele; as cores do Brasil.
Esta não é a primeira vez que a empresa tenta se desvincular de sua imagem anterior e coloca outros paradigmas em seus comerciais. A ação promovida em março deste ano, para dialogar com o Dia Internacional da Mulher, é também um exemplo. Nela, mulheres foram convidadas a reformular antigas campanhas machistas e misóginas da marca e transformá-las em um novo material, apresentando positivamente diversas feminilidades e formas de ser.
O momento é mais que oportuno para a elaboração de peças publicitárias como esta. A atual conjuntura dos movimentos sociais que embarcam na arena de disputas discursivas abre campo para a luta pelo poder de também significar o mundo e a sua própria realidade. Esta luta pela disputa de sentidos se traduz nas reivindicações de reconhecimento e reparação (SAILLANT, 2015). No caso da campanha Skolors, o reconhecimento e reparação dos grupos raciais: negros e mestiços.
Nesta arena de disputas, no que tange os estímulos dos meios de comunicação de massa, o que emerge são as relações de contenção e resistência, propostos por Stuart Hall em muitos de seus escritos. Dois momentos dialéticos, entre os produtos da indústria cultural e as “massas” que o consomem. A contenção se caracteriza pela assimilação destes produtos; uma forma de “aceitar” essas produções, apropriar-se destes produtos. Já o momento de resistência pauta-se na negociação ou total negações dos signos. Estas dinâmicas constantes são as que colaboram com o que se entende como os processos de mediação, teoria analítica proposta por Mártin-Barbero em sua obra Dos meios às mediações, as relações entre a sedução e a negação. Nesta proposta, o autor propõe um rompimento com os binarismos, afirmando que este olhar sobre os processos culturais enfraquece a percepção das contradições e das lutas.
De acordo com o que discorre Stuart Hall, no texto A identidade cultural na pós-modernidade, o sujeito pós-moderno percebe-se em um constante processo identitário. Em decorrência de um deslocamento das estruturas, uma descentralização do poder que corrobora na aparição de uma pluralidade de centros de poder, o sujeito pós-moderno aciona processos identitários também descentralizados, que podem ser opostos e contraditórios, que, por vezes, pouco têm a ver com as associações discursivas instituídas.
Decerto, as identidades nacionais também são afetadas por esse processo. Ainda em consonância com Hall (1992), a identidade nacional constrói-se na intenção de unificar as diferenças através de conquistas violentas, pauta-se na valorização e na supressão de certos atributos para a elaboração de um ideal de nação; determina, de diversas formas, o diferente, e, naturalmente, opõe-se à ele. A identidade nacional é uma forma estanque de entendimento sobre uma comunidade imaginada (ANDERSON, 2008), mas que ainda está sujeita aos seus processos internos de contradição.
Voltando à campanha publicitária, o que vemos é que ela se esforça em transparecer esta identidade nacional. Propõe-se a expressar uma “brasilidade” elaborada aos moldes da famigerada “democracia racial”. O rompimento com a antiga imagem da empresa associada a mulheres de biquíni perfeitamente adequados aos padrões de beleza estabelecidos, migrando para uma perspectiva mais consciente da pluralidade e diversidade da população, se faz possível através de reivindicações elaboradas por políticas de identidade (HALL, 1992; WOODWARD, 1997) que são muito pertinentes para a garantia de políticas públicas coerentes a estas reivindicações.
Por outro lado, também opera nos moldes capitalistas de elaboração de mercado. Um processo característico da virada do século XX para o XXI. Muniz Sodré (1999), em sua obra Claros e escuros: Identidade, povo e mídia no Brasil, argumenta, brilhantemente, sobre a percepção da camada negra da população brasileira que, naquele momento, se encontrava de fora dos esquemas de representação nos trabalhos no marketing e na publicidade de produtos de toda sorte. O autor afirma que, neste período, as camadas negras da população são percebidas como nicho de mercado e dá indícios de que isto teve seu início nos centros de pesquisa universitários sobre cultura e negritude e destaca a importância da revista Raça para promover a estabilidade deste âmbito. De toda forma, o que podemos compreender deste quadro é que as políticas de identidades também são políticas econômicas e operam tanto para o "bem" de quem reivindica quanto para o capital.
Veja o vídeo da campanha Skolors abaixo:
Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI
No cotidiano, nos deparamos com diversos fatos. Fatos esses que conferem um consenso sobre uma "realidade", uma verdade elaborada acima da sucessão de acontecimentos que nos rodeiam. No entanto, tudo que se sabe sobre qualquer coisa, possivelmente, não é tão factual para outros. Os fatos são tudo aquilo que se diz sobre eles; são tudo aquilo que compõe as representações para si. Podemos ter conhecimento sobre qualquer coisa, mas nunca teremos sua experiência por completo. Daí, o que se sabe sobre tudo é o que se fala sobre tal, o que o nosso imaginário nos apresenta em seu horizonte de possibilidades.
Nesse passo, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie nos alerta sobre o perigo da história única. Sobre a história que se desprende da complexidade das realidades. Claro que nunca se sabe tudo sobre qualquer coisa, mas não quer dizer que deveríamos nos ater a uma única possibilidade. Parafraseando a autora, "o branco é um eufemismo para o poder" e são eles, os que se apropriaram do capital social e simbólico, que detêm desta potencialidade de fixar significados e reproduzi-los até que já não haja dúvidas sobre a história.
De certo, o que Adichie nos alerta é basicamente sobre a dificuldade de ouvir o outro, a dificuldade de quebrar o silêncio e o vazio descritivo do discurso que se materializa sobre os corpos.
Assista ao TedTalk completo abaixo.
Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI
Francine Saillant é uma antropóloga e intelectual canadense e diretora do Centro Interuniversitário de Letras, Artes e Tradições (CELAT), sendo professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Laval desde 1996. Em meados da década de 1980, Saillant concentra-se nos estudos de antropologia da medicina e desenvolve trabalhos de etno-história sobre aspectos culturais afetados pelo câncer, Cancer et Culture, e questões sobre gravidez,Qui consulte les sages-femmes au Québec ?
No início dos anos 2000, Francine Saillant volta suas atenções para questões de cidadania, direitos por invalidez e questões raciais no Brasil. Entrando nessa linha, a pesquisadora passa a trabalhar com estudos de reparação e reconhecimento de minorias sociais, nos quadros brasileiros de emergência das lutas sociais.
Em seu capítulo "Reconhecimento e reparações: o exemplo do movimento negro no Brasil", publicado no livro "História oral e comunidade: reparações e culturas negras", organizado por Hebe Mattos, do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI), Saillant elabora um panorama geral das teorias do reconhecimento e reparação, que tangenciam os estudos da filosofia, sociologia, ciências políticas e a antropologia.
Com isso, ela ressalta os aspectos identitários e as relações sociais dos grupos raciais minorizados e elabora sobre as questões que atravessam o "lugar" das minorias sociais e suas diversas formas de inclusão social, dadas através de políticas públicas estatais e, principalmente, as ações comunitárias elaboradas em prol desses grupos.
Ao trabalhar o exemplo do movimento negro brasileiro, a autora comenta sobre a história da escravidão e os resquícios desta história no presente momento da sociedade "pós-escravista". Também identifica as leis de incentivo à cultura e história da África e as politicas de reparação e valorização da cultura negra como objeto central da formação identitária da cultura brasileira. Tudo isso levando em conta as propostas e todas as lutas do movimento negro, propondo a ideia de reparação de si, a reparação do dano histórico de negro dado nas instâncias de atividade cultural feitas de "nós para nós".
Clique aqui para mais informações sobre o livro que se encontra na página do Projeto Passados Presentes
Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI
Na edição TEDx Talk UFPE, Marlon Parente fala de seu direito de ressignificar. A palavra "bicha", para homens homossexuais, sempre foi algo doloroso e pejorativo de se ouvir. Esta, dentre outras palavras, deixa marcas muitas vezes irreversíveis na vida das pessoas. Palavras têm o poder do discurso. O poder de subjugar, degradar, humilhar e diminuir. Mas as palavras também têm o poder de enaltecer, valorizar, vangloriar e expor bons significados. A palavra é um elemento vivo de nossa comunicação que deve ser apropriado e ressignificado sempre que possível.
Confira, abaixo, as belíssimas palavras de Marlon sobre o assunto:
Veja também o documentário "Bichas":
Postagem: Matheus Bibiano - graduando de Estudos de Mídia/
Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFF - GRECOS/LAMI
Caio Melo, aluno de Sociologia e Comunicação, faz uma análise do Capitão América, super-herói de quadrinhos criado pela Marvel Comics. A partir do conceito de ideologia desenvolvido por Karl Marx, o aluno demonstra como a editora norte-americana constrói estrategicamente um personagem que viria a se tornar um tipo ideal de norte-americano em pleno período de guerras.
"Em março de 1941, no auge da Segunda Guerra Mundial, surgia nas bancas uma história sobre um super-soldado americano cujo poder mais atraente para a época não era sua super-força ou sua resistência e sim seu patriotismo: o Capitão América. Captain America Comics #1, criado por Joe Simons e Jack Kirby, introduziu ao seu público as primeiras aventuras de Steve Rogers em quatro pequenas histórias. Rogers era um homem fraco e frágil que, mesmo desejando, não possuía as habilidades necessárias para integrar o “bondoso” exército americano, sendo rejeitado no momento de sua inscrição. No entanto, ele fora escolhido como cobaia de um projeto de super-agentes, desenvolvido pelos cientistas estadunidenses, que consistia em um soro que aumentava as habilidades físicas e mentais dos escolhidos.
Captain America Comics foi um sucesso imediato, surpreendendo a Timely Comics (mais tarde, a empresa se tornaria a, hoje mundialmente famosa, Marvel Comics), que logo tratou de dar continuação às histórias do herói. Em mais de 70 anos de história, o Capitão América dos quadrinhos já sofreu dezenas de reimaginações e hoje acumula centenas de edições publicadas, além de protagonizar uma série de adaptações homônimas, sendo os filmes de 2011 (Capitão América: O Primeiro Vingador) e de 2014 (Capitão América: O Soldado Invernal) as mais famosas.
Neste trabalho, farei uma análise de passagens da primeira edição de Captain America Comics; analisarei o porquê de a história ser retratada da maneira que foi, levando em conta o contexto de sua publicação, me utilizando da definição de ideologia de Karl Marx."
João Vitor Santos, aluno da turma de Sociologia e Comunicação, morador da Penha e estudante em Niterói, refletiu sobre seu cotidiano com o transporte público para realização desse trabalho. Ao notar que o valor necessário para realizar esse trajeto corresponde a cerca de 70% do salário mínimo atual, o aluno resolveu analisar o calote nos transportes coletivos.
Para sua análise, João utilizou na bibliografia autores como Michel de Certeau, Néstor García Canclini, Stuart Hall e Carlo Ginzburg para demonstrar como o calote tem fundamento e é usado como tática por sujeitos que dispõem de poucos recursos para driblar as estratégias impostas pelos grupos mais poderosos da sociedade, nesse caso, o governo e as concessionárias responsáveis pela administração das linhas de transportes coletivos no Rio de Janeiro.
Foto: JV Santos
"Pegar um ônibus na Penha até o Santo Cristo, na altura da Rodoviária Novo Rio. De lá embarcar em outro ônibus até o terminal rodoviário de Niterói. Se sobrar grana e faltar disposição para a caminhada – o que raramente acontece – embarcar em outro ônibus até a Praça da Cantareira. Somando ida e volta desse trajeto chegamos a R$ 26,80 por dia apenas com a mobilidade do bairro da Penha na zona norte do Rio até a Universidade Federal Fluminense, no início de Niterói. Se levarmos em consideração os 5 dias de aula, durante as 4 semanas do mês chegamos a R$ 536,00 por mês. Esse valor dá conta de cerca de 70% do atual salário mínimo. Optei por analisar um recorte do que tenho visto como um importante fenômeno na mobilidade na cidade, o uso do calote no BRT (Bus Rapid Transit), levando em consideração essa matemática que realizo todos os dias para me locomover de onde moro até onde estudo e principalmente pela convivência cotidiana com a gente miúda espalhada por essa cidade. “Uma multidão móvel e contínua, densamente aglomerada como pano inconsútil, uma multidão de heróis quantificados que perdem nomes e rostos tornando-se a linguagem móvel de cálculos e racionalidades que não pertencem a ninguém. Rios cifrados da rua” como diz Michel de Certeau em “A Invenção do Cotidiano”.
Desde os tempos dos pingentes nos bondes, passando pelos surfistas de ônibus e de trem até o atual momento no BRT, o calote pode ser visto enquanto uma maneira de uso do transporte coletivo, pois possui formalidade e inventividade próprias, subvertendo a estrutura, muito distante da passividade do consumidor-esfinge citado por Michel de Certeau. Astúcia Multimilenar, o calote aproveita as ocasiões e delas depende, é um movimento dentro do campo de visão do inimigo, que dispõe de vantagens espaciais, observacionais/visuais e científicas/técnicas que tornam esse inimigo, no caso a lei transvestida de catraca/fiscal/policial, ainda mais poderoso. Leio o calote como uma cultura popular muito inspirado pelas reflexões de Stuart Hall em suas Notas sobre a Desconstrução do Popular, ao afirmar o popular na cultura como uma arena de disputa contra hegemônica, um dos locais onde o socialismo pode ser construído e não apenas expressado como uma coisa pronta. De forma muito sensível Certeau afirma que “o que aí se chama sabedoria, define-se como trampolinagem, palavra que um jogo de palavras associa a acrobacia do saltimbanco e à sua arte de saltar no trampolim, e como trapaçaria, astúcia e esperteza no modo de utilizar ou de driblar os termos dos contratos sociais. Mil maneiras de jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja , o espaço instituído por outros, caracterizam a atividade, sutil, tenaz, resistente, de grupos que, por não ter um próprio, devem embaraçar-se em uma rede de forças e de representações estabelecidas. Tem que “fazer com”."
O filme 1984, baseado no livro homônimo escrito por George Orwell, retrata o que seria uma sociedade inglesa num futuro não tão distante, controlada por um regime totalitário. Tendo ampla parte da população formada pela classe proletária, tal sociedade é governada por um partido onde o poder se concentra na figura do grande irmão, figura onipresente e inquestionável que vigia os indivíduos a todo instante através da teletela.
Para analisar o filme, Marinna Leal, aluna de Sociologia e Comunicação, utilizou como base algumas teorias de Marx, principalmente os conceitos de ideologia e alienação. O filme retrata a história de uma sociedade profundamente desigual, onde a classe dominante, representada pelo partido do grande irmão, tem controle total dos meios de produção e das superestruturas. Por outro lado, a maior parte da população, formada pelos trabalhadores, representa a classe oprimida, que tem sua força de trabalho explorada, além de ter acesso restrito à qualquer atividade que não beneficie diretamente o partido. Dessa forma, o proletariado é mantido em permanente alienação, incapaz de questionar e reverter o sistema no qual estão inseridos. Além disso, todas as mensagens que circulam em larga escala são produzidas pela classe dominante e, através de uma repetição constante, se tornam a única verdade ao serem impostas às classes oprimidas, que está envolta por uma falsa consciência ideológica.
"O filme 1984, de Michael Radford, é uma obra baseada no livro de George Orwell, publicado em 1949, com o título original Nineteen Eighty-Four. O filme, ambientado no que seria uma Inglaterra futura, relata o funcionamento de uma sociedade, Oceania, controlada por um governo totalitário, o Partido Ingsoc, que busca a dominação e alienação da população através do controle de seus pensamentos e ações, da alteração e manipulação da história, das informações, das palavras e significados, de acordo com os interesses do Partido. Para tal, os dirigentes do Partido utilizam telas de TV espalhadas pelas cidades que, além de emitir constantes mensagens e informações manipuladas pelo governo sobre questões econômicas, sociais e a respeito de guerras e batalhas, captavam imagens com o intuito de vigiar a conduta dos indivíduos, através ainda da personificação do chamado Grande Irmão (Big Brother). As três superpotências apresentadas no filme, Oceania, Eurásia e Lestásia, estavam constantemente em guerra.
Winston Smith (John Hurt) é um funcionário do Partido Exterior, uma fração do Ingsoc, que trabalha no Ministério da Verdade reescrevendo as informações e notícias de modo que essas transmitam uma imagem positiva para a população. Smith inicia um relacionamento com Julia (Suzanna Hamilton) e os dois passam então a desafiar as regras e o controle do Partido, que deseja eliminar a libido na população, bem como os bons sentimentos que não sejam direcionados ao Grande Irmão.
Algumas das teorias e conceitos de Marx podem ser identificadas em diversos momentos da trajetória da obra 1984, sendo a o conceito de ideologia e alienação os mais presentes."
Victoria Cosato, aluna de Sociologia e Comunicação, analisa a letra e o clipe da música Fancy, de Iggy Azalea, e nos faz prestar atenção não só na canção mas também na postura da cantora e em todos os elementos que giram em torno dessa temática.
A música passa a mensagem de que a boa vida é cercada de luxo, roupas de grife, festas, comidas e bebidas caras. Isso tudo viria acompanhado de poder e status social, refletindo a realidade da classe dominante. Por outro lado, para que todos esses bens sejam produzidos, é necessário que haja quem trabalhe, e isso ocorre de maneira nada luxuosa. Nesse sentido, Victoria identifica no clipe a questão do fetiche de mercadoria (Marx), responsável por ocultar a exploração da mão de obra em prol da posse do produto.
Assumindo que a indústria cultural é uma das forças que move o sistema capitalista, como desenvolveu Adorno e Horkheimer, a aluna questiona se a intenção da cantora é fazer uma crítica a esse meio, através do deboche, ou é enaltecer ainda mais essa indústria.
Assim como o significado da palavra, o clipe analisado é luxuoso, extravagante
e exagerado. Complicada é apenas a postura de seus realizadores ao aderirem, em
mesmo nível, ao merchandising e ao fetiche da mercadoria no vídeo em questão.
Para esta análise foram utilizados conceitos de Marx, além de Adorno,
Horkheimer e Simmel.
O videoclipe Fancy de Iggy Azalea é um dos maiores sucessos em
visualizações do Youtube de 2014. Com cerca de 380 milhões de views, o vídeo deu
ainda mais projeção à música e as paródias vão de “I’m so pregnant” (estou tão
grávida) a “I’m so farmer” (eu sou tão fazendeiro).
Antes de falarmos a respeito do clipe propriamente dito, é necessário situar que
a cultura pop e seus representantes, como Iggy Azalea, são uma poderosíssima
engrenagem da Indústria Cultural que, por sua vez, é uma força motriz do sistema
capitalista em que vivemos. Na Indústria Cultural, segundo Adorno e Horkheimer
(1985), a cultura é uma mercadoria, um campo de exploração econômica voltado
para o lucro e existe para garantir adesão ao sistema capitalista. A música pop
movimenta bilhões anualmente: em views e em dólares. O clipe de Azalea tem
merchandising desde a primeira cena... "
Domingo passado, dia 8 de março, foi o lançamento da Revista DR. Não à toa, na data intitulada como "Dia Internacional da Mulher", a Revista chegou metendo o pé na porta para reafirmar o quão importante é a criação de canais de informação que possam promover o diálogo e a troca dentro da comunidade feminina. Anti-capitalista e feita por mulheres, a DR aborda temas de cunho político e cultural, tendo como objetivo desconstruir questões sociais enraizadas, atentando sempre ao poder do discurso e buscando o empoderamento feminino.
Além do conteúdo indispensável, a revista foi muito bem produzida e dá gosto de ler e ver. O projeto conta com os textos de Mariana Patrício, Thamyra Thâmara de Araujo, Fernanda Bruno, Tatiana Roque, Barbara Santos, Oiara Bonilla e Ana Kiffer (foto acima), além de convidadas a cada edição. E a número 1 conta com a participação da coordenadora do GRECOS, professora Dra. Ana Lucia Enne.
Continuando com os trabalhos de "Sociologia e Comunicação", apresentamos o artigo do aluno Bruno Roncada. Baseando-se em um tema recorrente e utilizando-se de exemplos recentes, ele dissertou sobre a mensagem de "Ordem e Progresso" da bandeira brasileira e como essa ideologia se mantém nos dias de hoje. Para isso, falou sobre conceitos de Émile Durkheim - como "fato social", "consciência coletiva" e "instituição social" - para analisar o discurso de ordem que ainda pode legitimar uma determinada posição da sociedade brasileira.
O francês Émile Durkheim é considerado um dos pais
da Sociologia. O tripé formado por ele, Karl Marx e Max Weber é estudado em
basicamente qualquer curso introdutório à disciplina, seja no ensino médio,
seja no nível universitário.
Durkheim é um dos grandes representantes da escola
positivista, desenvolvida principalmente durante o século XIX. O Positivismo
pregava a defesa da ordem na sociedade para se alcançar o progresso.
Qualquer semelhança com o lema presente na bandeira
do Brasil não é mera coincidência. A inscrição foi inspirada no pensamento do
principal expoente da escola, o também francês Augusto Comte, que dizia: “O
amor por princípio; a ordem por base; o progresso por fim”.
A grande pergunta que inspira a produção deste
artigo é se a frase “Ordem e Progresso”, presente no principal símbolo
brasileiro, é simplesmente obra do passado, aceita apenas em uma outra época,
ou se ela continua sendo atual em nossa sociedade.
Recorramos a Durkheim para uma melhor compreensão
desta realidade. O pensamento durkheimiano é formado por uma grande quantidade
de conceitos. Dentre as definições, temos a caracterização do “fato social”. Ao
iniciar seus estudos, inspirado em outras áreas do conhecimento como a Química
e a Biologia, Durkheim buscava conferir cientificidade à Sociologia. Seguindo
esta linha, o sociólogo francês definiu então um objeto para a sua pesquisa.
Surgia aí o “fato social”, a maneira de pensar, agir e sentir exterior aos
indivíduos e que sobre eles exerce forte influência.