segunda-feira, 6 de julho de 2009

Elias


Norbert Elias (1897 – 1990) foi um pensador alemão, escritor de obras como “O processo civilizador” e “A sociedade dos indivíduos”, enfocado na formação do Estado Moderno e na modernidade como a sociedade dos indivíduos. Concorda com Gramsci ao afirmar que o Estado é mais que uma instituição, mas para ele o Estado é mais que uma relação também, é um processo, como historiador, Elias dá muita importância ao processo histórico, sendo essencial para entender a formação e onde se encontra o Estado. Analisando então por esse viés histórico, percebe-se que essa formação não é um processo linear, mas sim de negociações, rupturas e reviravoltas.
De acordo com Elias, a sociedade passou por um processo civilizador, um processo de normatização, pedagogicamente ensinado por meio dos mecanismos de controle. Há uma mudança nos valores na passagem do período pré-moderno para a modernidade, a “palavra” passa a ter mais força que a “espada” (aspecto claramente exemplificado pelo surgimento da diplomacia na França durante o século XVII), a ordem e a contenção, que simbolizam o ethos burguês racional, prevalece ao ethos guerreiro, do instinto e da natureza.
Os mecanismos de controle social que aparecem nos séculos XVII e XVIII, agiam de fora para dentro, ou seja, da sociedade para o indivíduo, com a imposição de valores por meio de manuais, da “etiqueta” e almanaques, por exemplo. Junto a esses mecanismos exteriores de controle, aparecem no século XIX os mecanismos interiores de controle, o que Elias denomina habitus, que são os valores inseridos e introjetados pelo indivíduo, sendo externado e naturalizado por ele, como exemplo cito o fato das mulheres que não se casavam no século XIX e que eram “punidas” pelas amigas, pelo círculo social de um modo geral, que paravam de se relacionar com essas mulheres por não terem seguido um dos pressupostos da sociedade moderna, a constituição de uma família no modelo burguês, ou seja, já haviam introjetado os novos valores defendidos por essa nova sociedade que se apresentava.
O processo civilizador, segundo Elias, se deu por acaso e pelo projeto racional, levando a uma evolução do Estado, mas sem o caráter evolucionista, pois assim não haveria acaso. Essa evolução, o acaso e o projeto racional levaram a constituição do Estado Moderno e de uma nova forma de viver a subjetividade, uma psicologização do indivíduo, que traria a ideia de personalidade, de singularidade do indivíduo. Tal aspecto é percebido na literatura do século XIX, quando os romancistas passam a compor o psicológico de suas personagens, a subjetividade e personalidade das mesmas. Para Elias, não foi a configuração do Estado Moderno que transformou os indivíduos, primeiro houve o desejo, uma mudança na mentalidade dos indivíduos que então aceitaram e legitimaram o Estado que ascendia. Em outras palavras, o Estado se manteve porque o ethos burguês havia sido introjetado pelos indivíduos.
O Estado Moderno, no pensamento de Elias, possui características como a divisão entre classes, a especialização das funções sociais, a classe média aparecendo entre as classes altas e baixas, a reorganização total do tecido social e os mecanismos de controle e auto-controle. Esse último traz um aspecto central no processo histórico da modernidade: a vergonha. Segundo Elias, diferentes estratos sociais correspondem a diferentes formas de vergonha, assim relativiza o fato das classes baixas serem sempre as mais alienadas, pois a vergonha é resultado da introjeção de normas, portanto, a classe média possuiria mais “vergonhas” por ter introjetado mais regras, sendo por isso a mais alienada. O Estado passa a ter o monopólio da força, o direito à violência, a vida social é modificada pelos novos valores, há uma progressiva regulamentação de afetos (contenção), a vida passa a ser menos perigosa, mas menos agradável emocionalmente. O campo de batalha, portanto, passa a ser dentro do indivíduo. Por considerar que a sociedade está inserida em um processo, Elias está afirmando que se encontra em aberto, sempre se construindo e se reconfigurando.

2 comentários:

tavares disse...

olá,
uma pergunta para a professora Anna Ene...

haverá publicação dos trabalhos do final da disciplina de tópicos especias em sociologia?
obrigada
abraço

blog do GRECOS disse...

já estamos postando os trabalhos, pouco a pouco.